Durante a repressão militar, políticos, artistas, professores e pensadores foram caçados e censurados. Notícias, críticas e opiniões, muitas vezes, trocadas por culinária. Havendo uma receita perdida em meio às notícias, era de se saber: censura.
Início dos anos 80. Eu tinha mais ou menos uns quatro anos de idade, e essas talvez sejam as lembranças mais distantes que eu possa alcançar. Os anos de chumbo chegavam ao fim; ainda bem! Eu não tinha, sequer, a consciência do significado de ditadura; mas não era inocente. Sabia que havia algo de muito errado naqueles dias.
Tenho uma série de outras recordações daquele tempo: a máquina Olivetti da minha mãe, o Opala amarelo do meu avô. Balanço, amoreira e cheiro de terra, seca e molhada.
Em preto e branco, eu assistia Os Trapalhões e o Pica Pau. Censura era uma palavra perigosa que aparecia na televisão.
Quando chegava visita eu, obrigatoriamente, oferecia um café frio e recebia o aviso invariável do meu avô: “cuida o que fala; tua mãe é funcionária pública. Tua mãe pode ser presa.” Como é que uma criança de quatro anos tem consciência do tipo de assunto que conduziria a sua mãe à cadeia? Subversiva desde a mais tenra infância, eu ainda não aprendi a cuidar o que falo.
Minha mãe era funcionária federal; trabalhava ali no antigo prédio do INAMPS. Recebia um salário muito bom a cada dia primeiro; uma merreca quando chegava o fim do mês. A inflação era um monstro, eu ouvia os adultos dizerem. Na tevê e nos jornais ela era representada por um dragão. Na vida real soprava fogo no cangote dos trabalhadores, torrando seus salários.
O chamado Milagre Econômico, li algum tempo depois, foi o único ganho do país no período militar. Ganho não, porque o crescimento do PIB fez aumentar nossa dívida externa. Em seus últimos anos, o governo militar estava fragilizado, mas não tanto quanto o povo, que amargava a hiperinflação, a recessão e um sem número de obras perdidas. Minha mãe calculava o salário pelo número de latas de azeite que poderia comprar.
Saíamos de casa ‘inda escuro, eu e a mãe, a caminho da escola e do trabalho. Atravessávamos o pátio do Seu França, nosso vizinho, atalhando para tomar chimarrão com o vô e a vó em frente ao fogão de lenha. Meu avô discutia com a tevê e eu sentia muito por aquele pessoal, do lado de lá, não ser capaz de ouvir o que ele dizia; um trabalhador, um homem tão sábio, por que não lhe ouviam? Eu achava que gente como o meu avô deveria ter voz.
Hoje eu acredito que todos nós deveríamos ter. E, apesar de eu ter crescido em tempos mais estáveis e democráticos, não quer dizer que eu e meus pares não paguemos o preço pela nossa boca enorme. A gente sempre paga.
Não será de se estranhar que, num futuro breve, nossas colunas sejam substituídas por receitas. De pizza, talvez. Amargas, com certeza.

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