O tempo passa e a gente vai cansando dos jogos enigmáticos, né? Pra falar a verdade, também cansei dessa tua brincadeira, da qual eu não soube seguir as pistas que não levavam a lugar algum. Andei em círculos, buscando sinais, interpretando olhares e palavras. Monossílabos, que se transformavam em frase inteira. Declarações de amor na minha cabeça. E dizem que ninguém ganha quando um relacionamento acaba, mas com esses teus joguinhos nós dois só perdemos… Empurrar com a barriga nos levou aonde? Sim, tá doendo muito sim, além da conta. Tá doendo porque cresceu demais. E, provavelmente, não foi a reciprocidade que fez o meu amor crescer, mas foi tua displicência, permitindo esse sentimento enraizar aqui e tomar conta de mim, como um amor plantado num conto do Caio Fernando, lembra? “…você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente…” Esse amor nasceu em mim e eu fui o quê? Quem sabe um dente-de-leão, com o qual você brincou e agora quer ver voar pra bem longe? Não; eu não vou fazer uma tempestade nesse copo de água com açúcar. Deixa ele aí. Por mais que eu queira te culpar, culpar a tua preguiça em podar as minhas expectativas, assumo a responsabilidade: fui eu quem quis acreditar. Tu és apenas mais um amor equivocado. E eu, mais uma no teu caminho. Claro que eu já esperava por isso. Talvez eu soubesse desde o início. A tua partida sempre foi um segredo que tentei esconder do meu coração, e que tu, finalmente, resolveste revelar. Claro que eu nunca tive medo! As feridas estão aqui há tempos, e, daqui a pouco, serão apenas cicatrizes. A cura será breve, agora que cansaste de me machucar. Pode deixar que eu mesma seco; secar o rosto não é tão difícil assim. Nem devolver as tuas coisas, ou tirar tua foto do porta-retratos. O pior é olhar pra trás e perceber o engano. Enxergar tão bem o que eu nunca quis ver. Só mais uma coisa: obrigada pela dignidade que me devolveste ao decidir abrir o jogo. A verdade agora dói, machuca. E eu não vou querer falar contigo por um longo tempo, ou, talvez, pra sempre. Mas é melhor jogar limpo do que prorrogar esse sofrimento pelo resto da vida. O nosso tempo já passou, e eu cansei de ser o teu passatempo.

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