O que leva alguém a tamanho desinteresse pela vida, a ponto de optar pela morte?
Falar sobre suicídio é um tabu que poucos querem transpor. Um assunto que a maioria de nós ignora, atropela e, principalmente, condena. O suicídio é considerado coisa de gente fraca, depressiva. Coisa de gente louca.
O silêncio sobre o tema é constrangedor. Quando muito, alguma história vira manchete na imprensa quando a vítima é conhecida, como algum artista, ou como no caso do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier, que se suicidou no início de outubro, após episódio de assédio moral e constrangimento relacionado ao trabalho.
A verdade é que ninguém acorda achando que é um belo dia para se matar. Até porque dificilmente qualquer belo dia será aprazível para quem está à beira do abismo. Você simplesmente levanta da cama, depois de outra noite de sono induzido, e insiste em esfregar os olhos e lavar o rosto, mas a realidade não é um sonho do qual você possa acordar. E mais uma vez você se dá conta de que vive um pesadelo permanente.
Você tenta ir adiante, mas não tem forças. Tenta recuar, mas já não dá. Então permanece ali, preso naquele desconforto e imobilidade que são seus longos dias. Sua vida está por um fio; talvez o fio de uma navalha que é afiada por muita gente.
O gatilho pode ser pequeno: mais uma discussão, mais uma negação, mais uma perda. Mais ou menos, o que quer que seja, é apenas o gatilho. Uma gota, mínima que seja, é capaz de lhe fazer transbordar. Tudo que, até então, lhe era familiar, agora lhe parece estranho e você já não se encaixa em lugar algum. Sabe que a derrota está chegando porque a dor que sente é maior do que tudo, inclusive do que a vontade de viver.
Há um inquisidor dentro de você e ele não lhe deixa em paz. E, claro, há mais de uma centena de inquisidores também do lado de fora, só que o pior de todos é aquele que está dentro. E é impossível fugir… Você já não consegue falar sobre isso e a morte é tudo o que ainda resta dizer…
Segundo a OMS, é registrado um caso de suicídio a cada 40 segundos, e o Brasil é o oitavo país no triste ranking mundial. Ainda assim, pouco se fala sobre o assunto…
O próximo caso poderia ser o meu; poderia ser o seu, com nossos problemas e a nossa inabilidade em falar deles. Com nossos tabus. Poderia ser o caso de uma mulher de olhos tristes, procurando por uma faca afiada.
Ela parou por um momento, escorada na pia da cozinha e pensou nas crianças sem a mãe, chorando. Ela chorou também. Lembrou que as crianças ficariam com fome; quem prepararia o almoço para elas? Tomou a faca e cortou a carne com vontade.
É bem mais confortável imaginar um final feliz, né?

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