Há muito tempo atrás, meu pai programou uma viagem interminável com a família. Depois de percorrer e pernoitar em várias cidadezinhas litorâneas, finalmente me arrisquei a perguntar:
– Mas, afinal, aonde o senhor quer chegar?
Ele me olhou espantado e respondeu com outra pergunta:
– E quem disse que eu quero chegar?
Até então eu não tinha aproveitado nada da viagem, na expectativa de que havia uma linha de chegada, e que, só então, poderia aproveitar as férias.
Da mesma forma, transformamos nossa vida numa incansável busca. Perseguimos sonhos, realização. Felicidade.
A gente fantasia, mitifica. Faz da felicidade um tesouro; e tesouros são difíceis demais de serem encontrados aqui, na vida real. Muitas vezes desperdiçamos bons momentos nessa procura. Há tanto esmero por uma casa linda que esquecemos de convidar os amigos para desfrutá-la conosco. Focamos tanto no trabalho que deixamos a família de lado. Ferimos e afastamos justamente as pessoas que se recusam a nos abandonar porque fechamos os olhos a tudo o que está a nossa volta.
Perdemos chances, pessoas, tempo. Às vezes, sentimos que tudo é o oposto do que precisamos. Há dias em que nada dá certo: não nos entendem, nem a gente entende ninguém. A gente não enxerga, não ouve; não quer ouvir. Nem responder. Nossa única vontade é sair daquela estagnação chamada presente. Fazemos da vida uma disputa boba, mesmo sabendo que o tempo é quem ganha sempre.
E não importa se eu ouço Clarice Falcão ou sou fã do Sinatra; se sou cristã, budista ou espírita. Se eu sou preguiçosa, ou estou sempre correndo contra o relógio; se repito isso toda semana, quando escrevo, para ver se o tempo se toca e me dá espaço. Todos nós, vez que outra, desprezamos o agora para viver um passo adiante, correr para um futuro idealizado que, talvez, nunca chegue. Passamos a vida preocupados, e a esperança, contrariando o ditado, é a primeira que perdemos. Acumulamos mágoas, medos. Guardamos dinheiro para gozar na velhice que o Alzheimer, ou alguma outra doença, nos rouba.
A vida me trouxe exatamente até aqui: acordada, às 23h45, na sala de casa, com o laptop no colo. Numa encruzilhada, decidindo entre outra xícara de chá ou algumas linhas a mais. Eu poderia simplesmente deletar esse texto ou me perder n’outra crise existencial, como se isso me fizesse algum bem.
Qual meu destino agora?
Aprendi há muito tempo que não importa. Um novo dia sempre nasce e, talvez, Guimarães Rosa esteja certo: “Felicidade se acha é nas horinhas de descuido.” Quem sabe? Olho para o controle da tevê…
Talvez seja melhor ir dormir.

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