Culpa dele, maldito despertador, que deixou de me acordar à hora exata em que ela estaria à minha espera. Estaria, não estaria?
Outra noite inteira sem dormir e, justo à hora de sair, um pequeno deslize, um breve cochilo e um despertador que não funciona… Será que foi a rotina desistindo de nós dois? Não fui eu, não; foi ela?
Dia atípico, até porque dentro da nossa normalidade ela sempre me enlouquece com trocentas mensagens pra que não me atrase. Hoje nem ligou.
Ainda encontrei tempo de escovar os dentes, escorado na pia do banheiro, enquanto enfiava as calças e culpava um pouco mais o relógio que só fazia correr em silêncio. Detesto a sensação das horas me escravizando; me roubando o tempo de fazer o que bem quero… E o que bem queria, naquele momento, era estar ao seu lado.
“Aonde vai esse garoto a essa hora? E com tanta pressa?” As pessoas provavelmente se perguntavam e nem eu saberia ao certo o que responder, mas eu precisava ir. E, encontrando com ela mais uma vez, deus nos livre do relógio! Mesmo que fosse a contramão da minha vida, a vontade era de fazer voltar os ponteiros e mudar uma parte do que veio antes: nossos caminhos, a discussão, o desencontro, algumas horas. Nossos pontos cardeais.
Queria ter falado mais baixo, mais manso. Queria ter falado mais de amor.
Enquanto dirigia, pensava numa maneira de apagar tudo aquilo que não precisava ser dito na noite anterior. E de sintetizar tudo o que deixei de dizer nos últimos tempos: “- Eu ainda te amo.” Bem assim, como quem diz “me dá a tua mão e vamos fazer de tudo para salvar o nosso sentimento, a nossa história. Vem comigo, porque há tempo suficiente pra nós dois.” A gente ainda é tão jovem, e eu nem tive tempo de aprender muita coisa; só sei que estar com ela é muito bom. Apesar dos relógios, da correria. Apesar de eu detestar horas contadas… Principalmente quando estou contando os minutos pra gente voltar a se ver…
É muito cedo, mas a noite cai dentro de mim. Ela não está em frente ao prédio onde pedi que me encontrasse. E agora eu sou apenas mais um coração angustiado, repleto de perguntas: será que ela não me esperou ou nem veio mesmo? Sigo em frente ou volto a sonhar?
O que fazer com o maldito despertador que insiste em não me acordar?

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