Respirou fundo e limpou as mãos sujas da mudança no avental bordado. A mobília já estava toda arrumada; faltavam apenas as pequenices que transformam casa em lar: as cortinas, os santinhos e um rádio. As louças e uma pequena biblioteca. Vozes dentro de casa.

O primeiro encontro dos seus olhos foi logo em seguida, ao chegar à varanda e vislumbrar o menino do outro lado da rua, espiando entre os sarrafos da cerquinha da área. Fitaram-se por algum tempo, até que ele correu para dentro da casa de tijolos aparentes, emoldurada pelos jasmins.

Não demorou a campainha tocar. Era ele, um menino de olhos grandes e castanhos. Tinha um prato com um pedaço revirado de bolo na mão e a boca lambuzada. Sorriu chocolate.

Naquela rua, pouco acontecia; quase não havia novidades, à exceção das raras passagens do picolezeiro. O pequeno divertia-se tentando advinhar o trabalho de quem transitava por ali: ela deveria ser professora, ele advogado. Mais tarde descobriu que ela pouco saía de casa e que o marido era antiquário.

A chegada daquela mulher, na qual já contavam muitos cabelos brancos, despertou o interesse e a afeição do moleque que, todos os dias, vinha correndo da escola, parava no alto da escadaria e olhava para trás, buscando seu olhar do outro lado da rua. Recebia um sorriso e um aceno, e, finalmente, sentia-se em casa.

Trocavam presentes singelos os dois: ela fazia-lhe biscoitos em formato de estrelas; ele oferecia-lhe mudinhas de jasmim. Ele ia ao armazém para ela e recebia uns troquinhos, os quais economizava para comprar-lhe agrados. Poesias e retratos.
O menino que usava calção e camisa de futebol cresceu. Trocou a bola pelas meninas; as brincadeiras pelos livros da faculdade. Mas seu olhar nunca mudou. Ele mesmo nem se deu conta de quando se tornou um adulto: se fora a barba, ou o trabalho de meio expediente. O noivado, ou a morte prematura dos pais – prematura sempre é a partida de quem amamos, seja quando for!

Hoje ele está há quilômetros de distância do menino que um dia foi, da meninice de outrora, mas, ali, reside o mesmo olhar carinhoso.

Há alguns dias, ela está com a mesa arrumada, a música tocando e porta aberta. A casa vazia; seu companheiro partiu.
Algumas florzinhas insistem em nascer em meio à grama alta, pois, apesar do inverno, a primavera sempre vem… Os lares estão carentes do perfume de jasmim. Porém, sua varanda e seu coração estão repletos de amor, daquele menino crescido que atravessa a rua mais uma vez.

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