Travessia, esperança, resiliência. Sobre o que falar no último texto do ano?
O Jornal Nacional do último dia 25 endossou minha escolha com a reportagem “Gratidão é o sentimento que circulou pelo Brasil em 2017.” Quase uma dica divina de que eu deveria realmente fritar o assunto que já vinha cozinhando há alguns dias.
Não tenho nada contra quem é grato. Mas é preciso que seja mais, bem mais, do que apenas uma palavra acompanhada de uma hashtag. De nada adianta o agradecimento sem a força e a energia que ele deve carregar consigo. Banalizar um sentimento é bem diferente do que exercitá-lo.
Na curta reportagem de segunda-feira, o historiador Leandro Karnal, em poucas frases, matou a charada: “Não pega bem no mundo atual o sentimento negativo. Então você deve manifestar suas férias extraordinárias e a sua família perfeita. Tudo isso faz parte hoje de um esforço de mídia pessoal. E tem relação com a noção de gratidão.” Ao mesmo tempo em que o termo viraliza, esvazia também; nesse caso, como se pudesse diminuir o impacto do exibicionismo e da vaidade no outro.
A gratidão, quando consciente, é uma homenagem silenciosa ao universo, que nos credencia a novas experiências; muito diferente da liquidez das palavras do mundo virtual. Ela nos treina para viver o bem-estar, o não-estresse. Reduz emoções tóxicas e gera aumento da sensação de plenitude e felicidade. É uma sensação que nos deixa em prontidão para vencer obstáculos; doenças, inclusive. Quando em tratamento da depressão, um dos exercícios propostos pela minha psicóloga era um agradecimento diário, que consistia numa anotação em bloco de papel. Coisa que ninguém precisa publicar para sentir-se em paz.
Agradecer é um ato de generosidade; um dos exercícios mais importantes e profundos daquele que busca evoluir. Gratidão pela vida, que ensina sempre! E as redes sociais são, justamente, o caminho inverso dessa tomada de consciência, pois nos distraem daquilo que vivemos.
Reconheço que a minha propensão ao pessimismo muitas vezes me cega às bênçãos recebidas, me tornando, eu diria, até mesmo ingrata. E o assunto escolhido afinal me fez refletir sobre isso, e sobre uma frase de Buda: “Se você nunca encontra razões para agradecer, a falha está em você”.
Um novo ano se aproxima, e com ele 365 novos dias, coloridos por metas e perspectivas de mudança; a gente não consegue fugir. Por mais céticos, chatos, negativos que sejamos (por mais secos!), nesse final de ano vai chover promessa. E vai chover agradecimento, principalmente nas redes.
Para entrar em 2018 com o pé direito, só posso encerrar 2017 e o texto dizendo: gratidão William Bonner. Sem hashtag.

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