Sufoco só de pensar. É sempre a mesma coisa: aquela roubalheira institucionalizada; o descaso com o público. Entra ano e sai ano, entra cada vez mais ladrão. Entra honesto e vira ladrão.
Ainda assim, a gente segue, na estreiteza dos nossos caminhos, cerceados pelas amarras infinitas. Nesse itinerário constante de acordar, trabalhar e pagar contas; qual a próxima parada?
Hoje não tem crônica numa tentativa de abafar o revés.
Dissabores me afogam pensando nos inúmeros pés na bunda que tomamos. Seriam eles o pontapé inicial para alguma boa nova?
Outra lembrança me invade. Posso ir?
Fico. Assumo esses olhos que não cansam nunca de chover mágoas. E, mesmo que se abram novas janelas e outros sorrisos, ainda haverá a dor espreitando. Um amor que chega, rasgando tudo o que acreditava blindado. É a vida atenuando a realidade.
Há centenas de textos na caderneta. Outros no celular, nas notinhas do mercado. Os perdidos. Há as tentativas. Os de rir, e chorar. Esse poderia até ser o começo de mais um. Não; fato consumado: hoje não tem crônica.
Me distraio com frases bonitas… “E eu batendo o pé que era alecrim”, escreveu entre sorrisos.
Não é falta de assunto. Todo dia tem excentricidade e pelo menos uma tentativa frustrada de revolução na rotina. Tem aumento do leite, o salário que nunca chega. Falar dos problemas de ontem, dos problemas de sempre, é ser contemporâneo. Temos um punhado de sonhos desfeitos… Esses excessos! Um ramalhete de corações partidos e outro solitário. E tem o esquecimento: telefones, nomes e histórias. Esqueço a saudade que me consola. Fotografias que desbotam e rostos que se apagam. Tem a tecnologia que auxilia e reprime; o futuro que dá medo. Bibliotecas e portas que se fecham diante da gente.
Absorvo o vazio enorme da nossa existência. Aquilo que não muda nunca, à exceção do que eu repito, que hoje não tem crônica. E, apesar de tudo isso, eu ainda necessito acreditar em algo bom.
Reúno meus hiatos. Pausas.
Carrego comigo um cansaço que nunca dorme e algumas promessas não cumpridas; são tempos difíceis. Quem dera escrever “bobagens meigas”, como Rubem Braga?
O dia é apenas mais uma bala dentro do revólver que mira as nossas cabeças.Foi quando, mesmo através da janela, assisti ao pôr do sol e respirei aliviada. Embora fosse tarde demais para se pensar em outro título.

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