Como sempre, passo as tardes ao lado dela, sentado sob a extremosa que, entre algumas poucas folhas e as pencas de flores cor-de-rosa, abriga as histórias que eu relembro sobre a nossa juventude. Divago. Às vezes acho que eu falo demais. Às vezes tenho a impressão de que os passarinhos “avoam” para longe porque eu falo demais. Mas eles sempre voltam; devem ficar curiosos para saber o que vem depois…
Há exatos 73 anos nos conhecemos, em seu baile de debutantes no Clube Comercial. Seu vestido era todo branco e ela tinha uma flor no cabelo. Era amarela, e se destacava como a única gota de tinta colorida borrando aquela pintura negra.
No ano seguinte, enviei-lhe flores amarelas para comemorar o dia em que nos conhecemos. E, dali em diante, em todos os anos. Para sempre.
Quando ela adoeceu, disseram que eu deveria estar preparado, que ela iria me esquecer. Mas nunca! Talvez porque, li em algum lugar, flores amarelas estimulem a memória.
Além das flores, eu também lhe presenteava com belíssimos cartões. Depois cartas de amor. Mas meu sentimento era tão grande, e tão forte, que eu queria que o mundo soubesse e, inspirado nela, passei a escrever cada vez mais. Primeiro eu escrevia ao som de música. Ao som do Orlando Silva. Muitos amigos, também pretensos escritores, que trabalhavam ao som de música, mudaram o repertório ao longo dos tempos. Ecléticos, justificavam alguns. Evoluindo, diziam outros. Eu não; sempre fui fiel.
Com o passar dos anos, fui deixando a música de lado para prestar atenção ao tremelique da xícara no pires quando ela me trazia o chá. Eu estava à espera do dia em que a mão da solidão viesse me tocar. É gozado como a gente deixa de viver o hoje na antecipação do amanhã, com medo do que vem depois. E eu deixei de ouvir a música porque tinha medo do silêncio…
Logo depois eu parei de escrever.
Só não parei de pensar nessas coisas todas. Ainda não parei de respirar as memórias que me consolam e nem a saudade que me aflige. É isso que oxigena minha cabeça e faz bater meu coração.
Ao meu redor, uma centena de histórias interrompidas. Mas é da nossa, presa numa foto antiga, em preto e branco, de quem me despeço ao final de cada dia, quando os portões se fecham e eu tenho que partir. Descansa em paz meu amor, eu repito baixinho.
Ela sempre arrumou essas flores amarelas com tanto carinho… E eu não sei deixar o arranjo tão bonito quanto ela… Mas faço o que posso, do jeito que eu lembro, na tentativa de não esquecer…

Já te falei que dia é hoje?

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