As batidas eram fortes e impacientes.
Uma, duas, três. Quatro vezes até eu levantar do meu sofá novo e aconchegante, girar a maçaneta e abrir, já apreensiva, a porta da frente.
Passou por mim, que agora estava de frente para a mãe dele, estática com aquela surpresa vespertina. Perdida em meu próprio hall de entrada, buscando palavras de boas-vindas num dia onde tudo veio mal.
Entrou rápido demais. Nem me viu!
Sentou no sofá, naquele lugarzinho quente, naquela concha que eu havia afofado para me aninhar. Sentei do lado; foi como numa gangorra: ele saltou. Caminhou pela sala, olhou tudo a sua volta. Sentou de novo. Resmungou qualquer coisa sobre o sofá. Colocou os pés sobre o sofá. Rolou para o chão; rolou pelo chão. Arrastou-se, arrastou um móvel e derrubou algumas coisas. Quebrou outras.
Chorou. Tentou fugir das garras da mãe, rolando mais algumas vezes pelo chão e, de repente, me achou.
Explorou cada ruga, cada sinal, cada marquinha que havia com a ponta dos seus dedos. Segurou o meu rosto entre as mãozinhas pequenas e perguntou a minha idade. Olhou mais de perto, bem mais de perto, com aquele ar curioso e intrigado que apenas quem está a descobrir o mundo é capaz de ter. Aquele olhar de quem te acha jovem demais para ser tão velha, mas velha demais para ser tão jovem.
Respondi, contrariada porque, sabem como é, não gosto de números, e ele nem processou. Correu novamente em desatino, ignorando a mãe que continuava a falar com as minhas paredes.
Encontrou o gato. Trouxe o gato até a sala; arrastou o coitado pelo rabo e, daí, o bicho puxou vários fios do sofá. Correu atrás do gato e, arranhado, correu de volta para o colo da mãe.
Nunca se dando por vencido, correu mais um pouco. Para os quartos. E foi só aí que eu entendi o porquê da arquiteta insistir tanto naquela porta que eu não deixei colocar. Privacidade.
Mirou a cozinha e acelerou em direção à geladeira: abriu, pegou, comeu e bebeu. Deixou a porta aberta e trouxe um tanto do que cabia nas pequenas mãozinhas consigo, para oferecer à mãe. Suco, gelatina. Guisado, iogurte e melancia. Tudo diet. Uma beleza! Um rastro de comida na cozinha, na roupa e sobre o sofá. Era eu limpando, a mãe fazendo cara de nojo e o gato lambendo (sem sair de todo da tocaia, porque não era bobo, nem nada).
Recolhi os potes, os pratos e os panos de chão, enquanto ele pulava mais uma vez sobre o sofá… Sobre o que sobrou do sofá. E me fazia perguntas sobre os quadros na parede: “quem é esse, quem é aquele, onde é isso, o que é aquilo?” Eu não respondia mais, nem a ele, nem à mãe, que, desconfortável, levantou e fez de conta que olhou para o relógio:
– Dá um abraço na tia e vamos para casa que já está tarde…
Tarde demais, eu pensei.
Com certeza estávamos em descompasso os três. Não sei se o guri estava adiantado, ou eu é que estava com a pilha fraca, muito devagar; mas, com certeza, a mãe não estava presente.
O guri abraçou minha cintura, carinhoso, e eu pude perceber os dedinhos se esticando e tentando se encontrar nas minhas costas. Enquanto os dois se afastavam, desejando boa noite, pude perceber o olhar de curiosidade voltando; com certeza a próxima pergunta teria a ver com o meu peso…
Comecei a contar, mas logo parei, afinal não gosto de números. Melhor trancar a porta de uma vez.

Deixe seu comentário