Foto: reprodução internet

Nunca fui boa com pronomes de tratamento. Como eu deveria te chamar agora? Tu, você? Meu amor?
Dúvidas ortográficas persistem; assim como a pergunta que não cala nunca: o que foi de nós dois?
Quando eu soube da tua partida, ainda deu tempo de apanhar passaporte, casaco; de pensar sobre a temperatura, lá, quase do outro lado do mundo, e voar para o aeroporto. Te amo, respirei de encontro ao vidro, sem pronunciar uma única palavra, sabedora de que não. Me amavas? Eu também sabia de que contra ela eu nada podia. Um grito vigoroso e insistente; te chamou alto. Ela sempre foi mais forte, sabíamos por antecipação, pelas outras vezes em que conseguiu nos afastar. Dessa vez ela te fez partir; eu escolhi ficar. E na soma das circunstâncias, não sei o que pesou mais em mim: a casa, a família ou a covardia. Não sei o que doeu mais: tu indo embora ou eu ficando; tu, de mãos dadas com um futuro novo, ou eu tentando abraçar o passado; por que a vida insistiu em nos separar? Vida louca vida, que te levou para tão longe de mim, de nós. Não falo inglês, nada muito além de um cumprimento; o que eu poderia te dizer agora? Que eu vivo nessa repetição; um disco arranhado, lamentando a tua ausência no idioma universal dos corações quebrados? Amargura, e a constância de um mesmo cenário: enlaço a noite para me consolar, mas a lua parece uma placa de trânsito enorme dizendo siga. Eu sigo, como se fosse uma parte tua qualquer que ficou para trás, esquecida; um pequeno apêndice onde habita outro coração. Teu. Não tá fácil te arrancar de mim, como se arranca um esparadrapo, velho, mas que permanece grudado na carne. Dói. Meus dias são monótonos: sentar na mesa de trabalho e viajar contigo; ouvir uma música do Cazuza e sonhar contigo. Tentar enganar a vida, e fugir contigo. Te encontro numa quimera; quem sabe com alguma dose de ousadia e umas aulinhas de inglês?
Apesar de todas as incertezas, me empenho em dizer adeus. Uma despedida curta, todo dia, com hálito de nostalgia. Um breve balbucio, correndo os dedos sobre o teu retrato…
Goodbye, meu amor.

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