Vidros embaçados desvelam as marcas das nossas mãos. Quando foi a última vez em que limpei as vidraças? A quem pertence o coração mal acabado no canto esquerdo?
Ah, essa enorme seca! Não há flor, nem folha, nem nada. Só as ausências.
Abraço uma coberta com força, para me livrar da frieza do mundo; pessoas uniformizadas – essa escassez de sorrisos!, seguem indiferentes em direção ao metrô. Não saberia dizer que horas são; talvez seja tarde, ou ainda cedo demais. É quase escuro. E eu observo o lusco-fusco dos últimos raios de sol brincando de esconder por detrás das nuvens carregadas. As estrelas fugiram do céu; a noite nasce num blecaute. Sinal de que vai chover.
Visto o quimono que usei pela última vez antes de você partir. Encontro um bilhete; papel borrado que não me disse nada, além de palavras bonitas e descartáveis diante das suas atitudes. Para dizer adeus, bastou reunir coragem que eu nem sabia que tinha. Eu ainda tinha seu gosto na minha boca. Efêmero, como a brevidade dos dias que vieram depois dos nossos olhos se encontrarem: foi tudo tão perfeito, sutil; exato como um e um são… somos? Fomos. Conto os ladrilhos azuis que caíram na parede em diagonal. Conto os dias longe de você. Conto alguns pássaros voando baixo. Sinal de que vai chover.
Cediça, me distraio com a água chiando na cozinha. Um galho arranha a parede e, num ímpeto, eu procuro alcançar o outro eu refletido na janela, obscuro. Os perigos são aqueles mesmos de sempre. Desisto de lutar contra a noite e tento adormecer sob o véu do abismo que se fez entre nós. Precipício. Há um grande halo ao redor da lua. Sinal de que vai chover.
Preciso desaguar. Latrás é um lugar que eu não consigo esquecer. Relâmpagos são sonhos. O vento e a saudade varrem a madrugada levando meu sono. Baratas voando na rua, um sapo sozinho na grama, as moscas. Presságios da chuva.
O chão está coberto de papéis amassados: lenços, meus rascunhos e o seu bilhete com letras borradas.
Já é de manhã.
Chovemos.

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