Faltava um pouco para as dez, horário normal do shopping, quando entrei na loja de departamentos que, oportunamente, dias antes do Natal, passou a abrir as portas às nove e meia da manhã. Eu queria apenas algumas quinquilharias; nada em especial. Havia poucas pessoas transitando por ali naquele horário, o que me deixou bastante à vontade para contemplar os produtos, as ofertas e os rostos a minha volta. Um, em especial, atraiu minha atenção.
Um senhor franzino, pouco cabelo e vasto bigode, ambos grisalhos. Vestia jeans, camisa amarela e usava óculos de grau. Reparei nele enquanto olhava os vestidos. Ele verificava os preços na arara ao lado. Depois nos encontramos remexendo nas bijuterias, nos jeans… Primeiro eu comecei a conjecturar sobre para quem seria o presente que ele procurava, o que motivaria tanto empenho na escolha: um pedido de amigo secreto, o preço, uma surpresa? Inevitavelmente imaginei os meus pais em seu lugar.
Finalmente chegaram às dez horas, e as outras portas do shopping se abriram às pessoas, cada uma carregando consigo o que é próprio do seu espírito de Natal: família, lembrança, cara amarrada, curiosidade e animação. Saudade, festança, tristeza, indiferença e solidão.
Não demorou para que os comércios ficassem lotados e ainda era muito cedo quando os sorrisos deram lugar aos olhares cansados. Isso não é de hoje. Não é de hoje que as bolinhas também cederam lugar a enfeites high tech, e que a troca de presentes que alegrava a noite do dia 24 foi substituída por listas intermináveis de pedidos nos dias que antecedem a data. Não é de hoje que concluímos que o consumismo invadiu as nossas vidas e possui lugar cativo em todas as mesas.
Então é Natal e todo mundo corre por causa de Papai Noel, do sousplat verde ou vermelho, do peru que, dizem, morreu de véspera. Mas do menino, que nasceu dia 25, nem todo mundo lembra por causa da correria e das compras. Da criança que se foi um dia, quem de nós encontra tempo para lembrar?
Será que tanto consumismo não é apenas mais uma tentativa nossa de esquecer o que nos aflige? Preencher de “coisas” o vazio que se torna muito maior nesses dias de dezembro; enterrar em compras e contas as tristezas que nos cercam?
Saí da loja e procurei um lugar mais sossegado, onde pudesse sentar e escrever sobre o quanto essa época é difícil quando sentimos falta de alguém. Sobre o quanto o Natal pode suscitar algumas das nossas melhores lembranças, da nossa infância e, consequentemente, a saudade dos nossos pais. Desisti das compras porque lembrei de algumas outras coisas que havia esquecido. Coisas mais importantes, e que o dinheiro não compra.
Meus votos de um feliz Natal aos leitores desta coluna!

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