Você lembra o que jantou ontem?
Ou é daqueles que se alimenta com o celular na mão, perdendo a percepção do mundo, da vida que está passando?
Conversar. Ir ao banheiro. Assistir a um documentário. Fazer uma declaração de amor. Caminhar atento aos sons da natureza. Viver.
Essa é uma pequena parcela de tudo o que deixamos de fazer quando entramos no embalo da rede social.
Há alguns dias atrás estive em uma floricultura na praia e embasbaquei diante, não da beleza do lugar ou de alguma espécie rara, mas do casal de proprietários, sentados lado a lado, absortos no celular, de modo que custaram a perceber minha presença. Não deixei de comentar, ao que o homem respondeu:
– Antes do Face isso aqui era mais bem cuidado.
Quando do meu primeiro emprego, em 1995, ano do surgimento da primeira rede social (Classmates) nos EUA e no Canadá, eu preenchia o tempo livre conversando com clientes e colegas de trabalho. Hoje em dia é difícil entrar em qualquer estabelecimento onde o atendente não esteja com a página do Facebook aberta na tela do computador ou com o Whatsapp apitando no bolso.
Esse “apito” é o lembrete, insistente, de que existe uma realidade paralela. De que, ao mesmo tempo em que estou escrevendo esse texto, preciso dar conta de uns cinco grupos de amigos, dois do trabalho, da família… De que precisamos nos dividir em muitos e que é impossível dar conta de tudo de uma só vez.
O Facebook também é exigente: as notificações estão lá, reivindicando a fascinação pela vida perfeita do outro. Seduzindo. Impondo uma necessidade desnecessária de que precisamos competir, expondo na vitrine nossos melhores ângulos, viagens, pratos e as maiores declarações de amor.
Estamos tão acostumados à fragmentação entre o mundo real e o virtual que a gente não se dá conta do tempo perdido. Quem nunca atrasou o almoço, ou outra tarefa qualquer, bisbilhotando as redes?
Entramos no automático e não vemos o tempo passar. Tempo perdido.
Esses são alguns dos motivos das redes sociais estarem se tornando tão nocivas à vida da gente. Não temos limites. Uma pesquisa realizada no Reino Unido classificou o Instagram como a rede mais prejudicial aos nossos jovens, responsável pelo surgimento ou agravamento de males como ansiedade, depressão e baixa autoestima. Você sabia que a região do cérebro acionada pelos “likes” é a mesma de um dependente quando usa drogas?
As redes obrigam a gente a estar bem; ou, ao menos, a parecer bem. Ninguém quer saber da sua depressão, do seu fígado ou se você acordou com o cabelo ruim. Não dá “like”. Então expomos apenas a parte boa. Daí, a falsa impressão de que todos estão felizes o tempo todo. Menos você e eu.
A plenitude é um tempo bem gasto com aquilo que realmente nos importa, seja a nossa família, o trabalho, um lugar especial. Mas a vida só fará sentido se estivermos presentes de corpo e alma, sem nos despedaçarmos para dar conta de recompensas momentâneas.
Somos como as flores da floricultura, que não dependem de curtidas para sobreviver.
Você deve estar pensando na minha hipocrisia, alguém que critica as redes, mas vive postando… Não estou cuspindo no prato em que comi: eu continuo comendo. Mas todos sabemos que uma dieta leve, inclusive nas redes, só faz bem para a saúde.

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