Conta a lenda que outrora havia um homem muito rico e sua jovem esposa, surda como uma pedra. Certo dia, sentados à mesa do café da manhã, a jovem mulher disse:
– Ontem, no mercado, vi vestidos de seda de Damasco, lenços da Índia, colares da Pérsia e pulseiras do Imã. Parece que as caravanas trouxeram tudo isso recentemente para a cidade. Olha para mim: sou esposa de um homem muito rico e ando por aí vestida com trapos! Gostaria de comprar algumas destas coisas bonitas para mim.
O homem respondeu, enquanto tomava café:
– Minha querida, não vejo motivo nenhum para tu não ires ao mercado e comprares tudo o que teu coração deseja.
– Não! Não! – respondeu a mulher surda – Tu sempre dizes não! Devo aparecer para os nossos amigos com roupas gastas e envergonhar tua prosperidade e a da minha família?
– O homem retrucou:
– Eu não disse não! Vai sossegada ao mercado e compre os vestidos mais bonitos e as jóias mais caras de tudo o que foi trazido para a cidade.
– Novamente a mulher entendeu mal sua resposta e disse:
– De todos os ricos da cidade, tu és o mais avarento. Tu me negas tudo o que é bonito e desejável. As outras mulheres da minha idade passeiam com os trajes mais valiosos pelos parques da cidade. E começou a chorar. E, soluçando, repetiu:
– Tu sempre dizes não quando desejo um traje ou uma jóia!
O homem estava emocionado. Levantou, pegou um punhado de ouro do cofre, colocou à sua frente e disse com carinho:
– Vai ao mercado, minha querida e compra tudo o que teu coração deseja.
Desde então sempre que a esposa desejava algo aparecia ao marido com lágrimas nos olhos e ele colocava em seu colo, em silêncio, uma mão cheia de ouro.
Neste texto de Khalil Gibran somos reportados a uma realidade de nosso cotidiano. Fica manifesto como os mal entendidos, as palavras mal interpretadas podem trazer conclusões que geram sofrimento e dor. As falhas na comunicação verbal dão ao outro o poder de entender o que lhe convém.
A surdez seletiva, ou seja, entender como lhe convém é pior do que a surdez real. Porque nesta há uma escolha, uma determinação, uma intenção.

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