Quando algo necessário demora muito para acontecer, é comum ouvir as pessoas dizerem que existe um “sapo enterrado”. No campo esotérico, os batráquios simbolizam a fertilidade, a abundância, a riqueza, a prosperidade, a boa sorte, o êxito, a força e a coragem. Em alguns rituais de magia negra, porém, enterrá-los ou fechar a sua boca costuma ser uma forma de invocar o mal, “trancar” caminhos. A volta do estacionamento rotativo pago, um sonho acalentado há pelo menos três anos por grande parte da comunidade montenegrina, parece que foi alvo de alguma bruxaria que não a deixa sair do papel. Esta semana, a Administração Municipal suspendeu a licitação pela qual pretendia contratar uma empresa para explorar o serviço. O edital foi lançado em abril, mas, segundo o governo, alguns pontos precisam ser rediscutidos, o que deve gerar novo atraso e estender a barafunda que reina no centro da cidade quando o assunto é vagas para deixar o carro.

Revisão – De acordo com o recém-chegado secretário de Obras, Argus Machado, a uspensão é temporária. Seria fruto de manifestações feitas por empresários interessados em participar da concorrência, mas descontentes com alguns itens. São três pontos: o tempo de concessão, de cinco anos; a exigência de atestado de capacidade técnica e o valor da tarifa, previsto para R$ 2,00 por hora de uso. A Smop alega que resolveu rediscutir internamente os parâmetros para evitar que haja impugnações via judicial, o que atrasaria ainda mais a retomada da Faixa Nobre.

Prevenção – A medida é preventiva, mas é curioso que o governo realmente tenha cedido a este tipo de pressão. As empresas alegam que a exploração do serviço requer um investimento muito elevado para um prazo tão curto. Da mesma forma, os valores não compensariam o esforço. Até porque, historicamente, os índices de inadimplência são altos. A Prefeitura pretende entregar a fiscalização desta e de outras demandas do trânsito à Guarda Municipal, mas é óbvio que não há agentes suficientes para garantir o recolhimento dos carros de todos que não pagarem.

Comparações – Por outro lado, os grupos interessados em assumir a Faixa Nobre não podem querer o mesmo retorno que os estacionamentos privados. Ao contrário destes, não oferecerão áreas cobertas e cercadas, com segurança e, principalmente, a garantia de ressarcimento dos prejuízos em caso de danos ou até mesmo de furto do carro. Nas garagens, o custo médio da hora é de R$ 5,00. Logo, para um serviço que não oferece nada disso, R$ 2,00 talvez não seja tão pouco assim.

Parquímetros – Diferente do que acontecia quando o Lar do Menor fazia a cobrança, até 2013, a empresa que assumir a Faixa Nobre não precisará de uma legião de cobradores para controlar o serviço. Provavelmente isso se dará através de parquímetros, aparelhos mecânicos ou eletrônicos que regulam o tempo de permanência dos carros nas vagas. Funcionam mediante a introdução de moedas ou cartões com códigos de barras. Significa que o investimento inicial é alto, mas a operação custará muito pouco.

Lobby – Ao ceder à pressão pela revisão do edital, a Prefeitura abre um precedente perigoso e sinaliza para a sociedade que isso pode ocorrer em outras licitações, inclusive em contratações milionárias. A verdade é que, nos últimos anos, surgiram inúmeras empresas de lobistas que atuam junto aos órgãos públicos para interferir – de forma nem sempre honesta – nos processos. Não é diferente em Montenegro, inclusive com a participação de ex-funcionários da Prefeitura. A Lava-jato e seus desdobramentos exigem que a sociedade seja cada vez mais vigilante.

Ainda que o poder público tenha sido bem intencionado, para evitar novos atrasos mais à frente, a suspensão do edital deixa margem para desconfianças. Como já se dizia na antiga Roma, “à mulher de César, não basta ser honesta; tem de parecer honesta”.

Exumação – Agora que a suspensão do edital já aconteceu, a Administração Aldana precisa se articular para retomar a tramitação do processo imediatamente. A ressurreição da Faixa Nobre é uma necessidade. É preciso encontrar o sapo e desenterrá-lo, viabilizando as melhorias que há anos são reclamadas pela comunidade montenegrina.

Rapidinhas
* Foram 22 as filiações realizadas esta semana pelo PSDB montenegrino. Entre as aquisições, o ex-secretário Márcio Menezes, o ex-vereador Cilon Alves Machado; o antigo coordenador da 15ª Região Tradicionalista, Pedro Cândido Angeli; e o citricultor Pedro Ulrich.
* A oposição reagiu com ciuminho ao anúncio de que o governo Aldana conseguiu um empréstimo de R$ 3 milhões junto ao Badesul para a realização de dez obras em vários bairros da cidade. Há quem diga que, desse jeito, a Administração vai inviabilizar os futuros governos. Talvez queiram que a comunidade siga sem as melhorias por mais alguns anos só para poderem tirar uma foto cortando a fita inaugural.
* A posse do novo secretário municipal da Saúde, Moacir do Prado, não resolverá os problemas do setor num passe de mágica, como muitos gostariam. Em entrevista ao Ibiá, ele deixou bem claro, nas entrelinhas, que qualquer melhoria nesta área depende de novas fontes de recursos. Como Estado e União estão quebrados, resta torcer para que ele, pelo menos, não permita que a pouca verba da saúde seja destinada a outros fins.

Dinamitando pontes
Desde que encerrou a apuração das eleições, em outubro do ano passado, o prefeito Aldana sabia que, neste novo mandato, teria o apoio de apenas três vereadores na Câmara. No caso, Rose Almeida, Josi Paz e Valdeci Alves de Castro, eleitos pelo PSB. Quando a nova gestão iniciou, este time foi reforçado por Talis Ferreira, do PR. Era justo e até lógico imaginar que a Administração tentaria construir pontes com a oposição para garantir a aprovação das matérias mais polêmicas. Isso até ocorre, mas, volta e meia, algumas atitudes dos vereadores da base colocam todo este esforço em risco. Semana passada, Rose Almeida protagonizou um desses episódios que, ao invés de construir, derrubam todos os tijolos.

Humilhação – Ainda que a discussão dos projetos produza momentos tensos, pela experiência que tem, Rose deveria atuar como bombeira. Ao invés disso, faz questão de demonstrar seu conhecimento e humilhar os colegas que, às vezes, se atrapalham nas argumentações. Quinta, ela chegou a dizer que tem “pena” de Cristiano Braatz (PMDB). Pavio curto, o colega, de forma pouco educada é verdade, revidou, sugerindo que tem “nojo” da neossocialista.

Alvos – Não foi a primeira vez que a única vereadora remanescente da legislatura anterior entrou em atrito com os colegas. Rose já “puxou o cabelo” do presidente Neri de Mello Pena (PTB) e trocou botinadas com Joel Kerber, do PP, de quem foi companheira de partido antes de virar socialista, em 2016.

Significados – De acordo com o dicionário, a palavra “pena”, da forma como é empregada por Rose, significa piedade, dó, comiseração e compaixão. Já o termo “nojo” equivale a aversão, asco, náusea e repugnância. Difícil dizer o que é pior para um político: ouvir alguém dizer que tem pena ou nojo dele.

Decoro – Ao que tudo indica, o assunto deverá ser tratado no Conselho de Ética, para a verificação de uma possível quebra do decoro parlamentar. Na legislatura anterior, um projeto de resolução determinou que um legislador punido pelo órgão interno não pode ocupar cargo na mesa diretora. O ex-vereador Roberto Braatz foi a primeira vítima dessa proibição. Será que Cristiano repetirá a história do pai?

Bom senso – Experiente, Rose tem sido rápida ao cobrar os deslizes dos colegas. Por outro lado, se submete, na CPI do Bela Vista, ao capricho do estreante Talis Ferreira, que aplicou a mordaça à imprensa ao não permitir sua participação nas reuniões. Talvez a vereadoa deva se dedicar mais ao que importa de fato: transparência.

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