O cientista suíço Jean Piaget, que faleceu em 1980, aos 84 anos, foi responsável por uma verdadeira revolução na forma de ensinar. Em décadas de estudos, ele concluiu que a própria criança constrói, a partir de estímulos, o seu aprendizado. Até então, a maioria dos educadores se comportava em sala de aula como donos do saber e ao aluno cabia apenas assimilar o que recebia, sem participação direta na edificação do conhecimento. Piaget também concluiu que só por volta dos 12 anos o adolescente passa a ter o domínio do pensamento lógico e dedutivo, o que o habilita à experimentação mental. Isso implica, entre outras coisas, relacionar conceitos abstratos e raciocinar sobre hipóteses. Levando em conta as teorias de Piaget, surgem sérias dúvidas sobre o nível de desenvolvimento cognitivo de alguns dos nossos políticos. No mínimo, estão com dificuldades de associar a suposta falta de dinheiro nos cofres públicos com um conceito básico da economia doméstica: só se pode aumentar as despesas quando há um crescimento nas receitas.

Ganho real – Na sessão da última quinta-feira, a Câmara de Vereadores aprovou por unanimidade – e sem maiores debates – uma reposição salarial de 2,07% a todos os servidores públicos municipais, a título de repasse da inflação. Além disso, autorizou a concessão de um ganho real de mais 3,08%, elevando as despesas com a folha de pagamento em mais R$ 2,8 milhões até o final do ano. A soma dos dois índices, 5,15%, era necessária para que o Município atingisse o valor do novo piso nacional do magistério, fixado por lei federal e em vigor desde janeiro. Contudo, o prefeito Kadu Müller entendeu que, por uma questão de isonomia, todos devem receber também o ganho real.

Dois pesos – O argumento é curioso. Em 2015, quando Kadu era secretário de Administração do ex-prefeito Aldana, o governo alterou o plano de carreira dos servidores públicos. Na época, TODOS receberam aumentos reais, a tal ponto de hoje haver muitos funcionários em atividades que exigem pouco preparo ganhando bem mais que os secretários municipais. Naquele momento, não houve preocupação com isonomia. O magistério, por ter seu próprio plano de carreira, não foi contemplado. Mas agora, porque precisa pagar um pouco mais aos professores, os demais servidores ganharão novamente.

Lógica – Que a Administração Municipal recupere as perdas inflacionárias, é plenamente compreensível. Mas ganho real num momento de crise severa é difícil assimilar. Para facilitar a compreensão: se você encerrou o mês devendo no cheque especial e a faxineira pedir aumento, o que fará? A Prefeitura terminou o exercício de 2017 com um déficit superior a R$ 6 milhões.

12 anos – A resposta é lógica, mas Piaget lembrou que esta capacidade de análise só se desenvolve a partir dos 12 anos. Infelizmente, parece que nem todos chegaram lá.

Mi-mi-mi – Também na Câmara de Vereadores, o raciocínio lógico é uma habilidade pouco desenvolvida. Na sessão de quinta, suas excelências carregaram nas críticas à Administração Municipal. Erico Velten (PDT) chegou a dizer que é preciso acabar com o “mi-mi-mi” da falta de dinheiro e agir para colocar em dia a manutenção das estradas do interior. Também reclamou do sucateamento do parque de máquinas, dizendo que algumas estão paradas por falta de peças que custam uma “merreca”. Logo depois, contudo, ele e os colegas votaram a favor do aumento real. Sem chiar.

Deficiência – Em duas semanas de trabalho neste ano, os vereadores já encaminharam ao Executivo 110 pedidos de providências. Muitos envolvem a limpeza das ruas e a conservação das estradas. Se os vereadores querem mesmo a solução dos problemas, precisam fazer a sua parte. Apoiar o aumento de gastos com pessoal e, ao mesmo tempo, encher o governo de pedidos, sabendo que não há verbas, pode revelar mesmo uma deficiência cognitiva. Ou, pior ainda, hipocrisia.

Ovo – O vereador Joel Kerber (PP) disse que estava reticente em aprovar o ganho real, mas depois se tranquilizou. A secretaria da Fazenda informou que está PREVISTO um incremento de 12,8% nas receitas deste ano. É isso mesmo: a Administração conta com um ovo que ainda está no interior da galinha.

Lógica – Também Talis Ferreira (PR) demonstrou que raciocínio lógico não é seu forte. Ao falar da crise nas finanças, ele chegou a propor uma CPI para apurar os motivos pelos quais o novo plano de carreira provocou um gasto com pessoal muito maior que o previsto inicialmente. Minutos depois, votou pelo aprofundamento desta crise ao apoiar a concessão do ganho real. Socorro, Piaget!

Aceitas mundialmente, as teorias de Jean Piaget talvez careçam de atualização. Doze anos pode ser cedo demais para alguns humanos exercitarem na plenitude o raciocínio lógico. O prefeito Kadu já tem 47 anos e, na Câmara, a média de idade dos vereadores é 44.

Erro – A despesa adicional provocada pelo ganho real pago a todos os servidores permitiria a recuperação e até a compra de algumas máquinas. A opção pela simples manutenção dos índices de felicidade dos servidores planta, no setor produtivo, a séria desconfiança de que pode ter errado ao apostar em Kadu. Em 2013, foram os empresários da ACI que o colocaram na política local, indicando-o para compor o governo Paulo Azeredo.

Sem credibilidade
O vereador Joel Kerber (PP) disse, na sessão de quinta-feira, que as descobertas feitas durante a Operação Ibiaçá comprometeram a credibilidade da Prefeitura junto a muitas empresas fornecedoras de produtos e serviços. Temem ter seus nomes associados a denúncias de corrupção. A teoria até tem fundamento, mas é provável que os motivos sejam outros.
1 – Algumas empresas simplesmente estão cansadas de participar das licitações e ver sempre os mesmos vencendo.
2 – Certos empreendedores estavam acostumados a um tipo de negociação em que nem tudo era transparente e não têm condições de ganhar se tiverem de seguir à risca as regras do jogo limpo.

Superação – Pode ser difícil, mas certamente o governo vai superar o problema. No momento em que ficar muito claro que ninguém levará vantagens indevidas, as empresas voltarão a confiar. Existem muito mais empreendedores honestos do que falcatruas.

Rapidinhas

* O vereador Talis Ferreira anunciou oficialmente que não irá concorrer a deputado estadual nas eleições de outubro. Disse não aos insistentes apelos do presidente do PR, o deputado federal Giovani Cherini.

* Disparado um dos campeões em pedidos de providências ao Executivo, o vereador Valdeci Alves de Castro (PSB) quer saber por que suas solicitações não são atendidas. Nem mesmo quando as equipes da Prefeitura fazem outros trabalhos nas imediações. Cheiro de boicote no ar.

* O Refis, programa que permite aos contribuintes pagarem parceladamente e com descontos de multas e juros seus débitos com a Prefeitura, deve terminar com arrecadação de R$ 1 milhão. A previsão inicial era seis vezes isso.

* O secretário municipal de Habitação, João Marcelino da Rosa, mandou um recado para alguém em sua página no Facebook quinta-feira: “Tem gente que se preocupa tanto em cuidar da vida dos outros pelas redes sociais, que acaba se esquecendo de cuidar da sua vida real”, escreveu.

* Aluno de Artes Visuais da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) em Montenegro, Giovani Bender deve integrar o governo Kadu em breve. Fala-se na Diretoria de Cultura.

* Depois de construir toda sua carreira política no PT, o ex-prefeito de Canoas, Jairo Jorge, sente-se à vontade para concorrer a governador pelo PDT. O pré-candidato fez roteiro pela região escoltado pelos principais expoentes da sigla de Brizola. Em cada cidade que visita, ele planta uma árvore. Espera-se que, se eleito, volte para “regá-las”.

* Comunidades do interior gostariam que a Prefeitura ampliasse o programa “Dia do Descarte Correto” para que os moradores do interior também possam dar um destino correto ao lixo eletrônico. Graças a esta iniciativa, várias toneladas de aparelhos de TV, de som, de computadores e outros eletroeletrônicos deixaram de ser jogados no meio ambiente.

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