Há momentos em que certezas se tornam dúvidas. Que somos testados naquilo que trazemos como valormaior. Que a vida nos exige apenas uma resposta…
Naquela tarde, ele voltou diferente para casa.
Cabeça baixa. Olhar distante. Sensações rasas.

Sua esposa, sentindo que algo não estava bem, parou ao seu lado. E ali permaneceu em silêncio por alguns minutos. Algumas pessoas tem o dom de ser presença acolhedora. E definitivamente, naquele momento, com maestria, ela o acolheu. Mais alguns instantes e ele rompe o silêncio. Com ares de esgotado, contaa ela que não havia sido nada fácil. Muito difícil, na verdade. Ele passara o dia,na capital,com seu velho amigo da perna amputada. Precisou escutar uma reclamação, outra e outra ainda… O dia estava ruim. O tempo estava ruim. Fazia calor, mas também fazia frio. Muitos carros na rua. Difícil estacionar. Doía ficar parado. Sair do carro doíaainda mais. Médicos incompetentes. Enfermeiras grosseiras. Nada passava despercebido: nada de ruim fugia aos olhos e à língua afiada do amigo. Nem mesmo ele. Suas palavras eram temperadas com a mesma acidez que corroía sua vida ao longo dos últimos meses. “Dirige devagar”.“Dirige mais rápido”.“Me larga. Eu consigo andar sozinho”. “Ajude-me a levantar”.Ao retornarem para casa, em total silêncio, ainda assistiram ao jogo, pela TV…

Depressão! Sim, depressão! Ela não se mostra apenas pela via do abatimento e da tristeza.
Após relatar tudo à esposa, algo se fez sem vida. Um silêncio frio.
Ela, porém, ávida por animá-lo, em tom de total indignação, diz que se as coisas chegaram a este ponto não deveria mais ajudar o amigo. Seriajusto deixar tudo de lado para passar o dia se dedicando a alguém tão grosseiro eingrato?
Mas seu pensamento, ainda distante, parece captar algo que, instantaneamente, reflete um ponto luminoso no olhar. Um brilho de alma. De vida que brota como as lágrimas que surgem em seu rosto.

Expira silenciosamente. Faz uma longa pausa. Inspira profundamente.
Pensa no amigo, na esposa, em si e responde:
“Não posso abandoná-lo. Ele é meu AMIGO!”
E não o abandonou. Nas semanas seguintes, se fez presente, suportando a amargura e o descaso. Visito-o durante os trinta dias da internação. Com o mesmo silêncio, se fez presente no velório. Na mão forte e amiga que carregou o caixão.
Acreditar, investir, cuidar, ouvir, esperar. Atitudes que resgatam a alma e com ela a esperança de dias melhores.
Minha homenagem àquele que foi, até o último minuto, um verdadeiroAMIGO.
Paz e Bem!

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