“Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras. Liberdade caça jeito”.
Andar sobre trilhos, pode nos parecer um caminho confortável e seguro, mas a rigidez do trilho contrasta com a flexibilidade da qual somos constituídos. Trilhos não permitem desvios, mesmo que estejam nos levando para um abismo. Muitas vezes me pergunto: Que trilhos são estes sobre os quais nos permitimos viver?
Creio que são fortes símbolos de memórias de “caminhos já trilhados”. Carl Gustav Jung sugere que “…a massa social devora o indivíduo que não está firmemente fundamentado em si” e “que temos como grande tarefa psíquica, construir o nosso próprio caminho”. A este processo, Jung atribui o nome de individuação.Uma experiência vital e profundamente transformadora.
Individuação é tornar-se “um consigo” e, ao mesmo tempo, com toda a humanidade. É sair da massa anônima e constituir uma comunidade consciente.
Nesta busca pelo “conhecer-se”, podemos contar com as psicoterapias. Estes processos não oferecem promessas de cura, felicidade ou bem-estar. Sua tarefa está, justamente, em colocar a pessoa em contato com sua realidade mais íntima para que, a partir dela, algo novo se produza. Mesmo que isto signifique o desconforto de “andar fora dos trilhos”.
Ideias, experiências e teorias auxiliam nesta busca, mas não bastam para nos aproximar da essência das coisas psíquicas. Há bem mais do que a (re) construção de um caminho. Precisamos nos produzir como caminhantes.Metaforicamente, andar no trilho é ver o caminho sob um ponto de vista. Porém, sob apenas um aspecto, jamais poderemos descobrir o que é verdadeiro e essencial.
Quando a vida atinge sua maior plenitude possível é aí que ela cumpre seusentido.Como bem interpretaMaria Bethânianestes versos (selecionados) de “Cântico Negro”:
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse… / Quando me dizem: “vem por aqui!” / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali / A minha glória é esta: / Não acompanhar ninguém… / Se ao que busco saber nenhum de vós responde / Por que me repetis: “vem por aqui!”? / Se vim ao mundo, foi para desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! / O mais que faço não vale nada… / Vós amais o que é fácil! / Ide! Tendes estradas, / Tendes regras, tratados, filósofos e sábios / Eu tenho a minha Loucura! / Não sei por onde vou, / Não sei para aonde vou / Só sei que não vou por aí!
Paz e Bem.

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