Em textos anteriores, trouxe uma reflexão sobre a origem não divina do ser humano. Que uma das possíveis causas para tantas das suas mazelas seria, justamente, o fato de almejarmos um lugar reservado aos deuses.
Guiados pela falsa ideia de uma descendência divina, acabamos embriagados de um conceito vazio. Cobiçar um posto para o qual não se está preparado, leva, unicamente, à exposição contraproducente do nosso real lugar na história.
E quanto mais alto se chega, mais visível (aquilo que é exposto) se torna.
Não aceitar estar no seu próprio lugar é uma atitude fundamentalmente humana. É próprio da chama da qual o homem foi criado.
Mas que lugar, afinal, caberia ao humano?
Se, ao longo da nossa história, os deuses, titãs e heróis foram perdendo seu espaço, entre o homem e sua própria origem, uma lacuna foi sendo formada.
Um exemplo seria que, se aos deuses era atribuída uma competência divina, a ausência destes deuses não elimina a necessidade do sagrado. Se aos heróis cabia a árdua tarefa do enfrentamento de monstros e as mais difíceis batalhas, na sua ausência a quem cabe a atitude heroica?
De forma alguma a “tarefa” deixa de existir, mesmo que a figura responsável por ela não esteja mais lá.Portanto, o atributo precisa migrar. Ao menos, deveria.
Mas a pergunta principal ainda não foi respondida: “Que lugar, afinal, caberia ao ser humano?”
Vem da própria mitologia a resposta. Ao homem, foi designado o trabalho! Eis nossa principal função! E que trabalho seria este? Certamente, não se trata do trabalho literal. O trabalho pelo trabalho. Mas, a transformação pelo trabalho. Dignificar-se, ao contrário de divinizar-se. Na falta dos deuses e heróis, o aprimoramento pessoal e o senso de coletividade passam a ser tarefas unicamente humanas.
Eis o lugar do humano: assumir a tarefa, jamais o lugar! O lugar (Monte Olimpo) não nos é cabido! Assumir as tarefas (a divina e a heroica) com a dignidade que elas exigem!
Entendo que seja preciso desconstruir este conceito que atribui à humanidade divindade e realeza. Em seu lugar, produzir (pelo trabalho) a sacralidade e atitude heroica. Estes dois fatores devem, obrigatoriamente, se fazer presentes.Caso contrário, a equação humana jamais estará completa.

Paz e bem.

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