Há quem lide muito bem com momentos de despedida. O Zé era um cara destes. Sempre procurou o lado positivo das coisas. Se havia tudo para dar errado, era um motivo a mais para acreditar que tinha tudo para dar certo também.
Muitas vezes, duvidava de Deus. Lógica controversa, pois a dúvida alimentava suas esperanças.
Desconfiava do equilíbrio das coisas. A vida lhe ensinara muito mais sobre a tensão entre os lados do que sobre a harmonia de uma balança perfeitamente calibrada. O Zé, quase que por religião, tinha a crença de que quanto mais força se faz de um dos lados da corda, mais força o outro lado precisará fazer para segurá-la. E, como ninguém, percebia como os lados são desequilibrados nas relações de trabalho. Logo, o segredo não estava no equilíbrio, mas na flexibilidade.
Em seus trinta e tantos anos de trabalho, aprendeu a olhar para os momentos de despedida (especialmente os por aposentadoria) como oportunidades de profunda reflexão.
Entretanto, a empresa na qual trabalhava, não era propriamente um lugar de afetos. Lá se pregava uma cultura de disputa e competição. Uma administração metida a “descobridora da roda”, com aquela visão já “surrada” de que “se a empresa ganha, todos ganham”. Balela.
Logo, é de se imaginar que muitos destes momentos de despedida foram marcados por discursos longos e vazios. E foram tantas despedidas vazias…
Nestas horas sempre aparecia o chefe, o chefe-do-chefe e o chefe-do-chefe-do-chefe. Quase a tribo inteira. Mas ninguém sabia dizer nada sobre o fulano que estava de saída, sem ser aquele clássico “É um grande profissional”.
De cantinho, alguém sempre profetizava: “As pessoas são apenas um número. Ninguém é insubstituível. Pode até ser um excelente profissional, mas aí fora está cheio de gente melhor querendo entrar.” O presságio tardava, mas dificilmente falhava.
Na última despedida, não foi diferente. Lá estava o Zé, observando tudo e viajando em seus pensamentos.
Concluiu que sim: bons técnicos são substituíveis e o trabalho segue. Que há uma história sendo escrita a todo momento. Que cada besteira falada, cada brincadeira, sorriso ou piada (com ou sem graça) são combustíveis essenciais à alma. E que é ela que dá sentido ao humano e seu trabalho. Que, bons profissionais, todos foram: o ranzinza, o chato, o gritão, aquele do apelido engraçado… E que todos são frequentemente lembrados. Porém, nenhum, por suas características profissionais.
Depois de tantas despedidas e pensamentos, o Zé conseguiu perceber uma regra da vida:
– Profissionais são substituíveis; PESSOAS jamais.

Paz e bem!

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