Depois das festas que pareciam fins de semana prolongados, gerando terças-feiras com cara de segunda, a rotina volta ao seu lugar na nossa agenda. Tudo bem que as comemorações são sempre boas e dá vontade de esticá-las por dias, tipo re-kerb, mas a realidade é implacável. Mesmo que você, na terça, ainda tenha requentado sobras de churrasco, ou aberto uma espumante sobrevivente, escondida na porta da geladeira; no máximo, na quarta-feira, já tinha voltado pros trilhos, imagino. Exceto aqueles que estavam e talvez ainda estejam de férias.
Assim como um trem que retoma a viagem após uma parada na estação, as pessoas também precisam fazer um esforço extra para vencer a inércia e voltar ao movimento. “A preguiça é inerente ao Ser Humano”, disse Kahneman em seu livro – o professor de Psicologia, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2002, não o zagueiro do Grêmio – referindo-se a nossa tendência em fazer o menor esforço possível. Levando isso para o campo do trabalho, se estamos há alguns dias de pernas pro ar, nosso instinto é continuar assim. Mas o ano começou. Logo virão as aulas, o IPVA e todas as demais contas geradas pelo nosso modo de vida. Trabalhar não é uma opção. Se bem que, no fim das contas, você é o mesmo profissional que era em 2017; mas tem um lugar para onde nunca voltamos depois do réveillon iguais a quando saímos antes do Natal: à academia.
Difícil passar ileso pelas ceias. A balança que o diga! Você até pode frequentá-la na última semana do ano, para queimar o panetone antes da chegada da lentilha. Agora, se a academia resolve ficar uns dez dias fechada no fim de ano, com a desculpa de reforma ou dedetização, aí lascou. No retorno, a sensação é de que os pesos estão mais, como posso dizer… pesados! A massa muscular diminuiu, dando lugar a gordura; como se uma se retirasse conforme a outra fosse chegando, tipo duas pessoas que não se suportam e por isso não ficam no mesmo espaço, nesse caso, o nosso corpo. A situação chega ao ponto de causar câimbras na barriga durante os abdominais. O fôlego diminui, a sensação de calor aumenta, a água não é suficiente, a ferrugem tomou conta das juntas; e nessa hora eu lembro que o Kahneman psicólogo está correto. Vontade de ficar numa cadeira de praia, com um panetone e uma espumante.
Mas eis que surgem os seres mais raros do mundo: Os Cumpridores de Promessas. Pessoas normais que entram pela porta da academia, acanhados, num misto de vergonha e curiosidade, e vão até a atendente acertar os detalhes para começar a malhar. Justo agora? Só pode ser promessa de fim de ano. Se os sedentários podem começar a frequentar a academia, quem já faz pode muito bem continuar. E assim mantemos a rotina. Porque desistir é só pra dar razão pra teoria sobre a preguiça do Kahneman – o psicólogo, não o gremista.

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