Existem certos momentos em nossa vida que, por algum motivo, acreditamos não ser de bom tom passarem despercebidos, portanto, criamos ritos de passagem, que servem de marco para tais datas. Um exemplo são os casamentos. Mesmo que o casal já esteja vivendo junto, ainda assim se faz uma cerimônia para demonstrar à sociedade a qual pertencem (e isso não se resume aos convidados) que aqueles dois assumiram um compromisso e que todos, a partir daquele momento, estejam cientes disso. Por outro lado, existem rituais de passagem para ocasiões em que todos estão envolvidos, como a virada de ano.
O réveillon, para muitos, vai além de uma simples mudança do calendário pendurado na porta da geladeira. É o descortinar de um novo ano totalmente em branco, aonde as possibilidades vão além da lista de promessas. Essa expectativa gera uma euforia que se transforma em festa e, como num casamento, tem suas próprias características. Porém, nem todos conseguem entrar num acordo.
A começar pela roupa; branca. Qual o problema com as cores? E se a pessoa não gosta de usar branco, tipo os roqueiros; eles não terão um bom ano? E olha que tem gente que exagera, comprando até as roupas íntimas nessa cor. E as freadas de bicicleta? Os impasses continuam na ceia, pois não se consome galinha no ano novo porque cisca para trás. Para dar sorte, tem que comer porco, que fuça pra frente. Aí vem a sobrinha vegetariana que acha que, pra ser um bom ano, ninguém deve comer carne. Tá feita a confusão e ninguém se lembra da panela de lentilha na ponta da mesa. Fogos de artifício também geram as últimas rusgas do ano. Alguns ainda gostam de foguetes e rojões, que servem apenas para fazer barulho. Outros são contra, porque assustam crianças e animais de estimação, além de dar muito trabalho para o pessoal do pronto socorro quando algo dá errado. Na hora do brinde, alguém aparece com uma espumante sem álcool, porque não pode beber, mas quer participar do brinde; aí tem que se policiar para que nenhum outro participante meio tchuco encha a sua taça.
Branco ou preto, porco ou galinha, barulho ou silêncio, espumante ou guaraná; não importa se você é um cerimonialista ortodoxo ou herege. A questão é: até que ponto o ritual é mais importante que a passagem que ele representa? Estaríamos aumentando a relevância do momento para justificar o tamanho da festa? Por maior que seja a comemoração, não é conveniente acreditar que a mudança de ano vai resolver a nossa vida como num passe de mágica. Como diz alguém nesse começo de 2018: “Não é o ano que tem que mudar, somos nós.”

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