Dizem que “a única certeza na vida é a morte” e que “pra morrer, basta estar vivo”. Tais frases parecem conter uma filosofia simplista, típica de para-choque de caminhão. Se concordamos com essas obviedades tão facilmente, então a notícia do falecimento de alguém próximo não deveria nos abalar com se estivéssemos diante de algo improvável – não impossível, já que a imortalidade do corpo não foi alcançada. Para o bem ou para o mal, nossos laços mais fortes não são atados pela racionalidade; quem costura essas relações são os sentimentos, e eles não calculam uma perda com antecipação.
Todos já passamos por isso. Uma mensagem no celular; uma ligação com a voz embargada no outro lado; um recado de alguém com os olhos marejados e voz pausada, escolhendo as palavras, como se isso pudesse diminuir o impacto da notícia. Não importa como, a reação é a mesma. O mundo pára, enquanto a mente refaz – ou tenta – o modelo de realidade, adicionando a perda e redesenhando todos os planos futuros em função disso. Quanto mais próximos, pior. Todos se abalam, uns sentem vertigem, alguns desmaiam. Tem quem não acredite a princípio, agarrando-se à esperança de um mal entendido. No fim, aceitam a notícia como verdade. O vazio pode ser tão profundo que altera bruscamente a vida de quem fica, deixando-a desorientada.
O ato de velar, quando feito em silêncio, nos leva a reflexões sobre o tempo que passamos com quem está partindo. E esse tempo sempre é pouco. Poderia ter vivido mais alguns anos, talvez meses, pelo menos alguns dias. O suficiente para cumprir as promessas, terminar os planos, concluir as obras, realizar os sonhos. Ledo engano, já que, por desconhecer a data final, que acreditamos estar distante no futuro, não apressamos o presente. Mesmo que a saúde já sinalizasse um fim próximo, os sentimentos produzem convicção na cura. Mesmo que fatalidades ceifem vidas precoces, acreditamos que não acontecerão com os nossos. E assim ficamos, diante do caixão, em silêncio, pensando se as flores são o bastante para compensar as falhas.
E quando o cortejo cessa ao redor do túmulo, no último momento de presença física entre nós, resta-nos a esperança de que alguma coisa melhor exista para aqueles que nos deixam. A crença em algo maior do que nós faz com que a chuva ou o vento, nessas horas, tenha um significado diferente. Céu que chora ou asas que batem. Os que ficam devem seguir seus caminhos, em consideração aos que partiram em outra jornada.

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