Os vírus, como o da gripe, resumem-se a microrganismos que não conseguem realizar seus objetivos principais – viver e se reproduzir – sem contar com um organismo hospedeiro. Uma vez dentro da vítima, os vírus alteram o organismo dela, de maneira a facilitar que os mesmos possam ir daquele hospedeiro para outro. Por isso, a gripe nos faz espirrar. É um método de arremessar novos vírus no ar. Se o espirro for numa manhã fria, dentro de um ônibus lotado e com as janelas fechadas, bingo! Mudando de assunto, há quem diga que uma ideologia se parece com um vírus. Ela se aloja no cérebro do hospedeiro, alterando assim seu raciocínio, distorcendo o modo de ver o mundo e, no final, quando a contaminação está bem avançada, a vítima passa a contagiar os demais a sua volta. Não com espirros, mas com discursos, num contágio boca-ouvido. Se todos fossem imunes, a ideologia não encontraria morada em nenhum cérebro e, nesse caso, estaria fadada à extinção, só sobrando registro de sua existência em livros. Como não é esse o caso, vamos analisar um grupo de risco quando o assunto é ideologia viral: os grevistas.
O quadro de baixa paciência e elevada indignação com o contexto de sua categoria faz com que o grevista esteja mais receptivo a novas ideias que prometam reverter o cenário, para que, assim, o ato extremo de entrar em greve não seja necessário. A já citada indignação tem o efeito colateral de inibir a atividade imunológica do intelecto, que fica a cargo do bom senso. Cabe a ele analisar quais ideias terão autorização para permanecer na mente do organismo, sem comprometer o corpo, ou sua vida social.
Infelizmente, as ideologias são mais evoluídas que a gripe. Enquanto a última provoca espirros esparsos, a primeira escolhe o momento mais propício para contagiar. Se a gripe imitasse a estratégia da outra, os gripados nunca espirrariam sozinhos em casa. Guardariam para liberá-los dentro do ônibus. Outra evolução é o ataque em bando. Mesmo que entre os grevistas existam alguns infectados com ideologias, outros infectados idênticos que não pertencem à classe em greve também acabam se juntando aos manifestantes, no intuito de aumentar a letalidade da contaminação. De novo, comparando com a gripe, seria como alguém gripado na parada de ônibus, que pegasse o mais lotado, só para ajudar os outros a garantir uma contaminação total dos passageiros. Quem nunca viu pessoas que se juntam a grevistas, apenas para apoiar – dizem -, mas levando sempre suas bandeiras, faixas e argumentos típicos da ideologia que nelas habita?
Não importa se o vírus ideológico veio das matas tropicais infestadas de guerrilheiros, ou dos porões mofados de algum quartel, ou mesmo da água parada de uma piscina de country clube. Devemos nos vacinar constantemente com doses de senso crítico, intercalados com reforços de leitura abrangente. Porque o que não falta por aí é zumbi cego dizendo que doentes são os outros.

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