No melhor estilo “o aniversário é nosso, mas quem ganha presente é você”, Montenegro celebrou seus 145 anos com uma programação diversificada durante a semana, culminando com o show de Paulinho Mixaria, na Estação da Cultura. A dificuldade de estacionar e o desfile de cadeiras de praia no entorno do local, uma hora antes do início da apresentação, já demonstrava que as atividades festivas seriam encerradas com chave de ouro. Dentre os presentes, havia até mesmo montenegrinos que ainda não tinham visto a Estação após a restauração. É o espaço público cumprindo o seu papel.
Com sua camisa azul e seu chapéu de catar ovo, Paulinho Mixaria entrou no palco para animar a plateia, debochando dos mais variados assuntos: sogra, academia, maçã do amor, baixinhos, chuchu; quem consegue fazer rir falando de algo tão sem graça quanto um chuchu? E de uma viagem? E nem foi da viagem toda, só a parte do avião. Ele sabe fazer com que riam dele, mas não é só isso. Em vários momentos, Mixaria apela para a memória do público, fazendo com que eles relembrem do seu próprio passado. Quem nunca teve as quatro latas que cabiam uma dentro da outra? Isso dá mais veracidade aos causos. Não bastasse isso, ainda tem o improviso, quando algum cachorro resolve subir ao palco e ter seus segundos de fama, o artista sabe encaixar o novo personagem na sua cruzada contra a sogra. Além, é claro, de todo um arsenal de trejeitos, gestos e sotaques que tornam o espetáculo interessante até o fim.
Chamou a atenção o fato de que em uns três momentos, Paulinho adotou um tom de voz mais sério, e tratou de explicar que pessoalmente não era contra aquilo que, minutos antes, estava ironizando. De acordo com o humorista, não dá pra fazer humor concordando; a graça está na crítica, no deboche, no ser do contra. Ele precisava, de tempos em tempos, praticamente pedir desculpas para os defensores do politicamente correto, antes que fosse alvejado pelo mimimi alheio. Fico imaginando a dificuldade dos humoristas em elaborar um show que faça rir, sendo do contra, mas sem ofender os contrariados. Que bom que alguns ainda conseguem ser engraçados num mundo sem graça.
No final do espetáculo, já praticamente noite, Paulinho Mixaria agradeceu a presença do público e deixou uma mensagem pra ser levada a sério. Disse que devemos deixar o mundo melhor do que era quando o encontramos. Pelo jeito, ele faz isso ao aumentar o humor das pessoas com suas histórias. Mas existem outras maneiras de melhorar o mundo; cabe a cada um achar a sua. Se, por acaso, o mundo parecer grande demais, não desanime. Tente apenas melhorar Montenegro. Essa velha senhora de 145 anos agradece sua ajuda.

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