Se existe algo imune à procrastinação humana é o velório. Uma vez avisado do ocorrido, a pessoa sabe que só tem algumas horas para ir, ou não. Impossível deixar para outro dia, quando tiver “tempo”. Até os mais idosos, já acostumados a adiar visitas por causa da saúde – esperar a pressão normalizar, o joelho parar de doer, a tontura passar, essas coisas – dão um jeito de comparecer, nem que seja de arrasto. Um senhor me disse que a única oportunidade de ver os parentes juntos é nos velórios da família. Isso é ruim, pois a cada encontro diminui um da turma.
Velório de idoso é diferente de velório de jovem. O segundo, pela brevidade e fim inesperados, consideramos uma tragédia, e os presentes, em meio à tentativa de aceitar a partida precoce, divagam sobre o que ainda poderia ter vivenciado. O primeiro não, pois morrer tarde é a meta desejada, já que viver para sempre não é uma opção. E diante de alguém que teve uma longa estadia nesse mundo, os presentes costumam aceitar a perda com mais naturalidade e, ao invés de comentar futuros não realizados, contam feitos do passado do morto.
E, cá entre nós, tem gente que tem história, hein. Os causos sobre o falecido surgem aqui e ali nas rodas de conversa no entorno do velório. Ocasionalmente, gargalhadas precisam ser contidas. Às vezes, devido ao teor da história e respeito aos presentes, algumas proezas são mencionadas em voz baixa, juntando o bolinho enquanto o narrador confere quem está por perto, olhando em volta. Anedotas, feitos, brigas e brincadeiras. Aquilo que de mais improvável o finado fez é o primeiro a ser lembrado. Talvez essa vivência para além da rotina comum a todos é o que marca. Dizem que aqueles que vivem vidas normais, fazendo coisas normais, não ganham estátuas em praça pública.
Estátuas e nomes de rua são para poucos que fizeram muito, para milhares; ou pelo menos é o que se espera de tais agraciados. Mesmo não gravando seus nomes em placas, algumas pessoas conseguem deixar sua assinatura no imaginário da comunidade onde viveram. Assim, ainda serão citados em conversas muito depois da partida, talvez até mesmo por pessoas que nem chegaram a lhes conhecer pessoalmente. Logo serão vistos como figuras folclóricas exclusivas daquele rincão. Seus causos virarão lendas. Seria isso o reflexo de uma vida plena? Ter sua existência relembrada constantemente – e espontaneamente – pode não ter um efeito prático na situação do protagonista. Ainda assim, é o mais perto que alguém chega da imortalidade.

Deixe seu comentário