Depois de toda a discussão em torno da possibilidade de se tirar zero na redação do ENEM, caso o candidato abusasse da liberdade de expressão para destilar ódio; acabaram por usar um tema não tão, digamos, explosivo. “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil” foi o tema proposto aos candidatos. O assunto foi bom, mesmo sendo mais brando do que os anteriores, ainda assim é um debate válido. Agora, deixando de lado a seriedade do tema, vou fazer de conta que sou um dos candidatos e, só de pirraça, fingirei que não entendi bem a que tipo de “surdos” se referem. Eis como ficaria minha redação:

Macaquinho com mãos nas orelhas
Nós sabemos que a educação é um direito de todos; e que as diferentes esferas do Estado têm, cada qual, suas responsabilidades para oferecer às crianças e jovens uma estrutura que atenda satisfatoriamente esse direito. Todavia, essa estrutura precisa ser reavaliada constantemente, pois o cenário muda como marés, e a nova onda do momento são os alunos com surdez magisterial.
Essa deficiência intelecto-auditiva vem tomando forma de epidemia, causada principalmente pelo consumo exagerado de informação sem qualidade na internet; principalmente nas redes sociais. Os alunos, naturalmente com baixa imunidade devido ao senso crítico ainda em desenvolvimento, acabam por ser contaminados por frases de efeito, raciocínios rasos, cultura de ódio disfarçada em memes, supostas citações de supostas personalidades, verdades “lacradoras” que dispensam reflexão, enfim, uma oferta de fictício conhecimento distribuído por fontes com nomes tipo “só verdades” ou “blog do Joãozinho”.
A exposição prolongada dos alunos a essas fontes provoca sintomas como a sensação de estufamento do cérebro e inflamento do ego, gerando obstrução auditiva aos argumentos dos professores como consequência. É como um parasita tentando convencer seu hospedeiro a não se tratar. Em alguns casos, os alunos mantêm apenas um dos ouvidos ainda ativos, mas apenas para continuarem se alimentando de somente um tipo de informação. Uns são o esquerdo, outros o direito. Essa audição seletiva é tão danosa quanto a total. Outros sintomas são: visão seletiva, distorção de fatos históricos, mania de perseguição, salivação, delírios sobre mitos, entre outros.
Nesse contexto, a relação tradicional entre professor e aluno fica comprometida. O aluno deixa de ser uma pessoa vazia de conhecimento para se tornar alguém abarrotado de informações sem nem ao menos conseguir lidar com elas. Cabe então uma reflexão sobre como desenvolver o senso crítico dos jovens, para que eles possam, por conta própria, separar o que presta do resto. Na era da informação, nunca foi tão urgente ensinar a raciocinar.

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