O veranista, com dor nas costas causada pelo colchão velho da casa alugada e de saco cheio de tanto vendedor de beira de praia, já nem olhava direito para quem se aproximava. Disparava um “não, obrigado” para todo vulto que entrasse num raio de dois metros da sua cadeira. Com o sol da manhã ainda numa altura que cegava os olhos sem óculos escuros – não por falta de oportunidade para comprar; três só nos últimos dezessete minutos – acabou por achar que a bandeira que se aproximava tremulando era um enfeite de algum carrinho de badulaques. Já estava com seu “não, obrigado” engatilhado na garganta, quando notou de canto de olho se tratar de outra coisa.
É um pássaro pescador? É um avião de voo panorâmico? Não; é um gaudério a cavalo, abrindo caminho com a bandeira rio-grandense pela faixa de areia, entre os guarda-sóis e as ondas, anunciando a chegada da Cavalgada do Mar.
Um fila de três cavaleiros de largura por dezenas de comprimento não passa despercebida. Com suas bandeiras de cidades e CTGs, suas pilchas e seus cumprimentos nada discretos aos veranistas, a cavalgada fez muitas famílias se levantarem para ver de perto uma amostra do campo, na praia. Sabe-se lá quantas crianças de apartamento estavam ali vendo seu primeiro cavalo ao vivo. Num dado momento, uma criança demonstrou tanto interesse, que um cavaleiro convidou ela para montar. Mesmo com frases de apoio da família, a criança ficou apreensiva, então o vivente apeou do cavalo para oferecer um breve passeio. Não sei se conseguiu o intento, mas vale notar o esforço daquele cavaleiro para que o guri experimentasse montar no pingo, e assim, quem sabe, plantar a semente do tradicionalismo em mais um gauchinho.
Claro que, como dizem: Toda unanimidade é burra. Sendo assim, tem gaúcho que, para posar de inteligente, discorda da maioria. Numa reportagem sobre a Cavalgada do Mar, um tiozinho foi entrevistado e não concordou com o evento. Alegou falta de higiene, já que os cavalos defecam durante o trajeto na areia. É a mesma briga com a presença de animais de estimação na praia. Se um cachorro incomoda muita gente, dezenas de cavalos incomodam muito mais.
Mesmo levando em conta todo o transtorno que uma empreitada dessas pode gerar por onde passa, não podemos ignorar aquela que talvez seja a mensagem mais facilmente entendida por quem assiste da areia a passagem dos cavaleiros. Não se é gaúcho apenas em setembro. É o ano todo. Com isso, vacinam as pessoas para que produzam anticorpos antes da exposição às culturas de fora. Assim chegam imunizadas no carnaval.

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