-Tempo bom que não volta mais…
Lembro que com essa frase, seguida de longo suspiro, um tio-avô terminou a narrativa sobre as brincadeiras no seu tempo de criança. Muitas delas bem perigosas para os padrões atuais, diga-se de passagem. Essa situação me fez recordar do comentário de um palestrante com seus sessenta e tantos anos, a uma plateia de adolescentes na qual participei. Ele disse: Quando as pessoas chegam nessa minha idade, elas começam a sofrer de algo chamado “saudosismo”. A frase e o suspiro do tio-avô eram sintomas disso.
Dificilmente encontraremos um adulto, quanto mais um idoso, que dirá com convicção que a melhor época de sua vida é o momento presente. A infância e adolescência, por uma série de motivos, entre os quais a ausência de preocupações e a crença num futuro amplo e cheio de possibilidades, são tidas como nossa época de ouro pessoal. Uma criança pode perder o sono por causa de um pesadelo, mas nunca por um boleto. Infelizmente, muitos confundem o momento pessoal com o momento histórico. O tempo bom de antigamente foi bom pra você, que era criança ou adolescente; e não necessariamente bom para todas as idades. Leandro Karnal resumiu isso dizendo: Biografia não é História.
Confusos por essa avaliação distorcida pela perspectiva infantil, muitos defendem um retorno para a época de suas infâncias, tendo como slogan principal “antigamente é que era bom”. Não estar satisfeito com a situação presente é um ótimo combustível para a busca por melhorias. Infelizmente, há quem sugira o retrocesso como o caminho para o futuro. Ao invés de pensar algo novo para ser experimentado, mesmo correndo o risco de falhar, alguns preferem implantar algo já testado e que, supostamente, funcionou. O pior é que essa mentalidade de exaltar o passado é antiga. Yuval Harari aponta isso como uma das causas da estagnação econômica que foi marca da história humana e só começou a mudar a partir do século XVI. Ele diz: “Geralmente [as pessoas] acreditavam que os tempos passados eram melhores do que sua própria época e que o futuro seria pior ou, quando muito, igual”.
O mundo evoluiu mais rapidamente conforme a esperança no futuro foi ganhando força, porque as pessoas começaram a se ver como protagonistas das transformações que julgavam necessárias para atingir as melhorias almejadas. Mas a sombra medieval do retrocesso, disfarçado de progresso, ainda obscurece nossa reflexão sobre o caminho a seguir. Copiar um modelo pronto é fácil, mas a solução mais adequada pode ainda nem ter sido pensada. Precisamos de maneiras novas para resolver velhos problemas, e assim, criar um novo tempo ainda não visto. Pois existem tempos que, mesmo que alguns julguem como bons, não devem mais voltar.

Deixe seu comentário