Na entrada, o fotógrafo começa a se movimentar. Os presentes se levantam. Chegou a hora. Os dois de mãos dadas, ou sozinho com o canudo, entram no salão. Passos lentos e sorrisos largos, ou passos rápidos e um “uhuu”. Os donos da festa chegaram. Flashes. Papel picado. Mais flashes. Convidados aplaudindo. Mais flashes. Assim vem sendo o cerimonial de chegada de noivos ou formandos.
Momento para se dirigir a todos os convidados de uma só vez. Sempre começando com agradecimentos. Aos pais, pelo apoio. Aos presentes, por estarem ali. Aproveita e emenda algumas desculpas; como os convites que não foram entregues em mão; o sumiço da vida social durante o TCC, essas coisas. Aí vem a parte do discurso em si. Palavras mais carregadas de sentimento. Lembranças da caminhada até aquele momento podem deixá-las trancadas na garganta. Alguns levam por escrito, e mesmo assim, ficam pelo caminho. Tem quem terceirize essa parte para alguém melhor na oratória. Mas o bom mesmo é quando sai de improviso. Se a pessoa for bem humorada, arrancará risadas ao invés de lágrimas.
Mas não termina aí. A palavra passa aos demais convidados. As famílias também podem preparar algo. Escolhe-se um porta-voz. Pode ser, por exemplo, o irmão mais velho que, munido do microfone, anuncia uma surpresa preparada especialmente ao noivo. “- Que entrem as dançarinas seminuas!”. Declara, olhando para a porta. Tensão na plateia. Brincadeirinha. O politicamente correto não permite. A avó já olha atravessado da mesa ao lado. E assim vai; família, padrinhos, amigos do trabalho, do curso, da ginástica, da lotação. Mas o pior é que a comunicação está tão contaminada com a tecnologia, que simplesmente falar não serve mais. Tem que fazer vídeo com depoimentos, montagens com fotos e outras coisas multimídia. Nessas horas, aquelas fotos de deveriam ter sido deletadas ou queimadas são as escolhidas para ilustrar o discurso. Sem contar o momento nostalgia, quando reviram o passado e volta e meia perguntam: lembra-se disso fulano (a)? Lembra sim, mas queria esquecer, e depois dessa, aí mesmo não sairá da memória.
Finda essa etapa, segue a festa. Fotos com convidados, comida, bebida, conversa, bolo, mais bebida, música. Agora pergunto: vai que aquele amigo de infância, convidado pra padrinho, depois de beber todas, de dançar a macarena, a dança da cordinha, empurrar um freezer pela pista, resolva tomar coragem para fazer a sua homenagem de improviso? Melhor esconder os microfones. Antes que aquilo que o politicamente correto omitiu venha à tona; e afunde tudo. Mais rápido que as dançarinas seminuas.

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