Todos já devem conhecer a história da cigarra e da formiga. Nela, a cigarra vai até o formigueiro, faminta, no inverno. Pede comida, mas a formiga questiona por que ela não guardou durante o verão. A cigarra admite que errou ao ficar apenas cantarolando. No final, aprende a lição. Imaginem como seria a conversa alguns invernos depois.
-Cigarra! Lembra-se de mim?
-Não. Deveria?
-Sou eu, a formiga. Fui eu que te atendi anos atrás, quando bateu lá no formigueiro.
-Agora lembro. Não te reconheci porque vocês são todas iguais.
-Pois é. Mas que baita casa. Quem diria?! Também, com todo esse sucesso. Tuas músicas estão estouradas! Sempre escuto na rádio. Até comprei teu DVD.
-Original?
-Acho que eu deveria ter ficado em silêncio. Entenda; ele tá num preço meio salgado.
-Se você acha… Enfim, veio pegar um autógrafo no DVD pirata?
– Não. Na verdade, vim te pedir uma ajuda… Nada de dinheiro. Preciso mesmo é de trabalho.
-Mas e o teu cargo lá no formigueiro? Te pegaram fazendo corpo mole?
-Capaz! Meu cargo já era. Eu e as outras fomos substituídas por máquinas importadas, controladas por um nerd que nem sabe a diferença entre uma urtiga e uma samambaia. Daqui a pouco, o próprio computador dele vai demiti-lo.
-Aí você resolveu me procurar?
-Não, primeiro deixei currículo em outros formigueiros da região. Eu fui da equipe de carregamento de folhas a minha vida toda. Eu nasci pra isso; mas a resposta era sempre a mesma: só contratamos terceirizados. Resolvi tentar a sorte em outros ramos. Fui nos cupinzeiros; porém negaram, alegando que eu não iria me adaptar ao novo ambiente de trabalho. Tentei até mesmo as abelhas, mas não passei no teste físico por falta de asas. Então, pensei que você pudesse me ajudar.
-Que ironia. Daquela vez, eu também me ofereci para trabalhar com vocês, mas adivinha a resposta!? Não. Por esses mesmos motivos.
-Entenda o lado do formigueiro. Você era uma cigarra que vivia cantando. O departamento pessoal tinha medo que a sua cantoria tirasse a atenção das demais. Veja o lado positivo. Se tu tivesse sido contratada, hoje estaríamos nós duas na rua. Agora olhe sua carreira atual. Pode-se dizer que foi um mal que veio para o bem. Quando saiu de lá, o que fez para chegar até aqui?
-Ensaiei muito. Aprendi técnicas de afinação, aulas de canto, dança, expressão corporal, marketing artístico, enfim, construí cada degrau para o sucesso. Hoje tenho uma agenda com 20 shows por mês.
-Grande cigarra! Nesses shows têm bastante equipamentos? Que tal me contratar para carregá-los? Levanto muitas vezes o meu peso.
-Não vai rolar, minha equipe já está completa e treinada. Me desculpe, mas hoje não vou poder te devolver a ajuda. Mas posso devolver um conselho: Fuja de empregos que podem ser substituídos por uma máquina. Mais cedo ou mais tarde, serão.
-E só me diz isso agora?
-Lamento, mas tenho que me preparar. Hoje tem show na avenida principal, no meio da floresta, em comemoração ao dia do trabalhador. Você vai assistir? Posso te mandar um abraço durante o show. Você vai estar parado mais ou menos onde?
– Estarei lá, mas circulando, com uma caixa de isopor na cabeça. Vou aproveitar e faturar algum. Tenho que me virar pra dizer que hoje ainda é o meu dia.

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