Toda criança, em algum momento, sonha em ser um super-herói. Batman, Homem Aranha, Mulher Maravilha, Chapolim Colorado. Poder fazer o bem, ter poderes especiais, voar, desaparecer. Os super-heróis estão no imaginário infantil como justiceiros. Idealistas, altruístas, generosos. Em determinado momento, eu achei que era o super-homem. Durante algumas semanas, não tirava a fantasia para nada, conta a minha mãe. Não me lembro o exato momento em que me dei conta de que infelizmente eu não era quem queria ser. Mas não deve ter sido fácil.
Trinta anos depois, voltei a me sentir como uma criança que jura ser um super-herói. Em uma noite de chuva, raios e ventos fortes (morar no décimo segundo andar deixa os ventos ainda mais assustadores, acreditem), destas que têm se repetido, a Antônia acordou assustada e chorando. E desta vez, diferente do que ocorre normalmente, não podia ser a mãe. Por alguma razão, ela pediu pelo “paiiiiiiiiii”. Ao abraçá-la, senti que aqueles bracinhos se entrelaçaram aos meus com força. A cabeça recostou no peito. E a minha voz calma e suave a confortou. Ela parou de chorar. E tornou a dormir.
Naqueles minutos, eu me lembrei de quando tinha 4 ou 5 anos. Desta vez, eu estava sem capa e sabia que não seria legal me atirar daquela altura. Eu não conseguiria voar, nem escalar paredes, tampouco levantar carros com as mãos. Mas senti que ali, para a minha pequena, eu era uma proteção, um escudo. Uma fortaleza. Ouvir aquela respiração foi como salvar alguém ameaçado por um criminoso, tirar um afogado do mar, uma criança de um incêndio.
Pais, mães, avós, enfim, responsáveis, são vistos pelas crianças como referências. Ainda que imperfeitos, também têm seus poderes. Amor, carinho, dedicação. Sem fantasias, capas, truques. Os super-heróis da vida real são seres simples. E, por isso mesmo, encantadores.

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