Na terra do 8 ou 80, secação se aprende desde o berço. Cresci nos anos 90, em uma infância marcada por títulos dos azuis. O Beira Rio foi o meu lugar preferido na adolescência. O velho Beira. Raiz. Com banheiro sujo, arquibancada de pedra, coréia, cachorro-quente de pão velho, refrigerante quente. Times horrorosos. Vi a eliminação na Copa do Brasil para o América de MG, com chuva, água nas canelas, acompanhado do Adriano Bergamo, meu companheiro de sofrência. Ah, e eu também estava nos 4 x 0 para o Juventude. Nesta mesma época, do outro lado, tudo era festa.
Torci muito naquela famigerada década de 90, mas sequei na mesma intensidade. Em vão. O Grêmio ganhou tudo o que pode. Quase tudo, graças a Deus e ao Ajax. De tão secador, eu sabia a escalação daquele time holandês de cor. Era difícil ir para a escola nos anos 90. Colorado que resistiu a todo aquele suplício nunca mais balançou. Mas a vida é assim mesmo, e nos agarramos a amores bandidos sem maior explicação. Torcedor de verdade jura amor eterno na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Depois veio a recompensa. De 2006 a 2010, todas as mágoas e sofrimentos do torcedor menino foram substituídas pela graça alcançada naquela manhã de 17 de dezembro. Tudo valeu a pena. Cada lágrima. Cada desapontamento. Só que passou e a gangorra virou, exatamente como acontece na vida da gente.
Que dias difíceis têm sido estes. Eu não sei se a final da Libertadores anteceder assim tão rápido ao mundial foi uma coisa boa ou ruim, “secadoramente” falando. Por um lado, Maquiavel já nos ensinou que “as maldades devem ser feitas de uma só vez”. Só que é uma overdose de foguetes, memes, whats, televisão, rádio, camisetas pela rua, bandeiras, avião chegando, avião partindo, entrevistas, homenagens, etc.
Falta energia para a secação final. E, para completar, o Real Madrid entra em crise e o time é avaliado como o pior da década. Deixem o Cristiano Ronaldo em uma cápsula, protegido de tudo. É ele a última ponta de esperança. O nosso Messias. Ou ele nos salva, ou, de fato, no próximo sábado, o planeta vai acabar.

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