O Brasil é um país violento. Segundo a Organização Mundial da Saúde, temos a nona maior taxa de homicídios das Américas, com 30,5 casos para cada 100 mil habitantes. No Canadá, o índice é de 1,8 para cada 100 mil. Ok, não é parâmetro para nós, então vamos olhar para o quintal do vizinho. No Uruguai, a taxa é de 7,6. Pior que isso, a maioria dos nossos assassinatos acaba ficando sem respostas. De acordo com um levantamento do Instituto “Sou da Paz”, do Rio de Janeiro, apenas seis estados brasileiros conseguiram informar com precisão quantos dos assassinatos são investigados e solucionados.
O “Atlas da Violência” 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA, traz um perfil destas mortes registradas no país. Entre a população jovem, a média da taxa de assassinatos a cada 100 mil pessoas chega a incríveis 60,9%. Isso mesmo, o dobro da média nacional. Entre 2005 e 2010, o número de mortes de negros aumentou 18%. Entre as mulheres negras, a elevação foi de 22%. Marielle, portanto, não é exceção. Está dentro do perfil e das estatísticas.
Quando um ser humano é assassinado, o que se espera é que o caso seja investigado rigorosamente dentro da lei e que os culpados sejam responsabilizados, punidos. Não interessa quem é vítima ou criminoso. Preto, branco, rico, pobre, homem, mulher, trans, católico, ateu, político, gari ou médico. Isso é óbvio, eu sei e você sabe. Só que não tem sido assim.
Tenho pensado muito sobre o que escrever neste espaço. E creio que em tempos de tantas leituras e opiniões, é preciso fugir do senso comum, oferecendo algum ponto que saia um pouco do que já foi dito. Uma linha que seja. E, acredite, não é tão simples. Só que, às vezes, é preciso dizer o que parece que todo mundo sabe. Porque vivemos tempos em que nada mais é inacreditável. Estamos perdendo a capacidade de ficarmos perplexos. Vivemos anestesiados.
Assassinatos viraram palanque para disseminação das mais variadas teses de ódio e intolerância. Não bastasse isso, os discursos são amparados por mentiras, invenções e ilações irresponsáveis, espalhadas e reverberadas por gente desinformada ou maldosa mesmo. Não posso entender como alguém pode passar adiante informações que saiba que não são verdadeiras. A minha tristeza não é só pela Marielle. É por outras pessoas que perderão amigos e familiares para a violência. E vão chorar pela ausência, saudade, mas também de raiva, por saber que muito possivelmente, os assassinos seguirão impunes, anônimos, à espera da próxima vítima. Da próxima Marielle.

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