A ministra Luislinda foi sincera, mas desastrada. Ao requerer um pedido para acumular os vencimentos como desembargadora aposentada mais o que corresponde ao cargo que ocupa no primeiro escalão do governo federal, ela errou gravemente ao dizer que a situação vivida se assemelhava ao trabalho escravo. Errou de novo ao perguntar como viveria com uma renda mensal de R$ 33 mil. A reação foi imediata e previsível. Como professores, policiais e outros tantos trabalhadores que recebem muito menos do que merecem e bem abaixo do que ganha a ministra, reagiriam a tal declaração? Deu no que deu.
Podemos discutir alguns aspectos racionalmente. Ainda que ela tenha direito a uma aposentadoria próxima do teto constitucional, é justo que ela se dedique a um ministério e não receba por isso? Por outro lado, a lei do teto serve para que, se não for cumprida?
Entretanto, há uma coisa que a ministra disse em uma de suas entrevistas que a mim revela grande parte do que adia a solução dos principais problemas brasileiros e, mais do que isso, desnuda um pouco mais da natureza humana e sua individualidade. Perguntada se considera justa a lei do teto, ela disse mais ou menos o seguinte. “Não é essa a questão. Estou no meu direito de peticionar.”
Perceberam? Pouco importa se o valor de mais de R$ 60 mil for exacerbado para os cofres públicos. Se há uma brecha, eu vou tentar esse quinhão. E é assim mesmo. A expectativa de vida aumentou consideravelmente nos últimos 30 anos, as pessoas vivem mais e melhor. As condições de trabalho melhoraram. Mas se eu puder me aposentar aos 45 anos, azar que eu viva até os 90. O problema é do Estado. E se eu trabalhar em uma estatal sucateada e deficitária, minha única preocupação é com o meu emprego. O resto que se dê um jeito.
O problema de cada um é sempre maior que o do vizinho. Os direitos também. Como mediar, equilibrar essas forças e garantir justiça? O que é o interesse coletivo? As declarações da ministra foram lamentáveis. Mas entre todos que formaram o tribunal de execradores da Luislinda, quem não exerceria o seu “direito de peticionar”? Ah, pois é.

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