Dizem que o politicamente correto é um saco e está tornando o mundo mais chato. Mas tem coisas que embora hoje soem engraçadas, não faziam o menor sentido e foram absurdamente espraiadas durante muito tempo, sem maior contestação. É o politicamente correto que faz a minha Antônia cantar, aos dois anos, “não atire o pau no gato, porque isso não se faz, o gatinho é nosso amigo não devemos maltratar os animais, jamais”. Que vergonha tenho de tantas vezes ter gritado que deveria atirar o pau no bichinho, lamentando que ele não morreu. Sim, era uma simples musiquinha que não me levou a bolar um plano para efetivamente matar um felino, mas convenhamos que não tem nada de adequado ensinar uma criança a repetir versos tão insanos. As gerações futuras serão muito melhores.
Essa semana, lembrei-me de outro ditado cheio de boas intenções, porém desastroso. “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Embora mais uma vez pareça somente uma bobagem, há muito de significado em uma cultura paternalista e machista que coloca a mulher em segundo plano, tendo que suportar os mais variados tipos de agressão e humilhações mesmo dentro de casa. Por vezes, palavras e gestos podem ser tão ou mais repulsivos e marcantes quanto chutes e pontapés. Era esse o triste papel atribuído ao sexo feminino. Servir aos homens. Lentamente, as coisas vêm mudando. Mas essa letargia está custando vidas que nos escorrem pelas mãos.
A cada duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil. Isso mesmo, na média, 12 por dia. Na semana passada, colegas de trabalho e amigos montenegrinos choraram pela Mariane, terapeuta ocupacional que atuava junto ao CAPS e foi brutalmente morta pelo marido, em Porto Alegre. As redes de proteção têm atuado com o máximo esforço, envolvendo conselhos municipais, Polícia, Judiciário. São esforços conjuntos que driblam as dificuldades estruturais para afastar agressores do convívio com as vítimas.
Mas é preciso, sim, meter a colher. Denunciar, encorajar mulheres que o façam. Ninguém precisa aceitar a infelicidade. Ninguém merece viver coagido ou sob constante ameaça. Para salvar vidas, não é preciso ser super-herói. Basta ter sensibilidade, olhar ao redor e ouvir pedidos de socorro que gritam em silêncio.

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