Imagine uma eleição em que cada pedaço do território abrangente tenha um sistema de votação. Cédulas grandes, pequenas, de cores diferentes. Em alguns estados, voto à caneta. Em outros, com um preguinho. Ou um pregão. A contagem dos votos pode levar dias. Semanas. E pode haver recontagem. Pode até ser que no prazo da posse dos eleitos não se tenha certeza de quem assume. E o mais incrível: quem faz mais votos pode não ganhar. E se eu disser que tudo isso acontece ainda hoje, 2018, nos Estados Unidos?
Penso nisso cada vez que alguém pergunta “por que nós temos votação eletrônica no Brasil e os americanos não pensaram nisso antes?”. O tal “complexo de vira-latas” do brasileiro é mesmo um fenômeno curioso. Nós, montenegrinos, aliás, somos a mais fiel representação dos que pensam que não somos capazes de nada e que tudo de bom já foi inventado antes por alguém de fora. Se não foi, é porque é ruim.
As urnas eletrônicas agilizaram o processo, evitaram a interferência humana na interpretação de cédulas avariadas e universalizaram o sistema eleitoral. Só que geraram desconfiança. Na maioria dos casos, de quem perdeu. O Dr. André Tescheiner, que foi juiz aqui em Montenegro e um especialista em informática, tecnologia da informação e afins, garante que as urnas eletrônicas são seguras. Doutor André é um daqueles sujeitos que honram a toga. Postura, conduta, competência. Se ele disse, tá dito.
Mas eu entendo os desconfiados. Somos feitos de trouxa o tempo todo. Quem lidera não dá exemplo. Basta ver qualquer noticiário para perceber que a corrupção é o tema central do país. E ela atinge diversos escalões das áreas pública e privada. Estamos sempre de orelha em pé, à espera de novas decepções. Essa é uma das piores consequências deste processo de exposição das vísceras de uma nação doente. Por um lado, sairemos mais fortes depois de investigações, prisões e condenações de figurões, antes intocáveis. Por outro, nosso receio nos torna quase paranoicos, descrentes de nós mesmos.
Se ainda há quem duvide que o homem foi à lua, como acreditaríamos nas urnas eletrônicas? Essa discussão sobre voto impresso comprovando o que foi escolhido no sistema eletrônico eu até entendo. Agora, realizar eleições à moda antiga seria assumir nossa incapacidade de olhar para frente. Estaríamos de lado, feito caranguejo. Ou para trás, ciscando feito galinhas.

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