Primeiro, eu vi filas de carros parados para abastecer. A última lembrança que tinha desta situação era da década de 90, quando eu era criança. Mesma época em que as maquininhas circulavam entre os corredores dos supermercados. A geração millenial não sabe o que era isso e, felizmente, nunca conviveu com inflação galopante, troca de moedas, cortes de zero.
Depois, mercados desabastecidos. Não na Venezuela, aqui, bem na frente do nosso nariz. O setor produtivo parou. O Brasil parou, literalmente. Restaurantes e lojas fecharam as portas. Uma das maiores empresas do Vele decidiu doar 150 mil galinhas. Uma bela iniciativa só maculada pela tristeza de saber que a razão foi a falta de ração, que levaria as aves a praticarem canibalismo. Empreendedores, pequenos e grandes, contam os prejuízos. Lutam para manter empregos.
Quando o limite parecia evidente, uma cena de filme rompeu esta percepção. Um caminhão escoltado desfilou pela cidade, seguido de desesperados seres humanos que mais pareciam zumbis, em plena luz do dia. A notícia se espalhou, viralizou pelos cantos do Monte Negro. Só que não. Era Fake News. O tanque estava vazio. Não tinha o líquido precioso. Vinha apenas buscar um produto químico. A natureza é implacável. Quando estamos famintos, vamos perdendo os sentidos, um a um. Acabou o gás e o discernimento. O pouco que ainda nos restava. Não é só de comida que temos fome.
Horas depois, agora sim, chegou. Filas nos postos. De dobrar o quarteirão. Em tempos de whatsapp, a notícia se espalha. A manada corre para o mesmo lado. A alegria estampada nos rostos. Uma mistura de alívio e felicidade. Nunca fui tão feliz em um posto de combustíveis. Tinha de volta o meu direito de ir e vir. De poder ir para casa.
Entre os mobilizados, frases pedindo Intervenção Militar. Um protesto pedindo ordem para o fim dos protestos, custe o que custar. Confuso? A ditadura é recente no curso da história mas já foi esquecida por muitos. Culpa da nossa péssima mania de varrer a sujeira para debaixo do tapete. Não enfrentamos nossos erros, não exorcizamos nossos fantasmas. Eles seguem moribundos, vagando por aí, a nos atormentar. Volta e meia aparecem. Foram dias estranhos, quase inverossímeis. Disseram muito sobre a natureza humana. Sobre os dias de hoje. Sobre nós mesmos.

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