A morte de mais de 300 pessoas em ataques terroristas na Somália trouxe além da tristeza e comoção, um debate sobre qual a razão de algumas tragédias nos tocarem mais que outras. Por que a morte de mais de 130 jovens na França em uma casa de shows gerou mais apoios e manifestações em redes sociais do que a chacina no país africano? E por qual motivo postamos “praying for Somalia” e fazemos vistas grossas aos latrocínios e assassinatos covardes que acontecem debaixo do nosso nariz, aqui na região metropolitana? Foram algumas das perguntas que li e ouvi na última semana.
As respostas são complexas. Tem um pouco de geopolítica, preconceito, cobertura midiática, banalização da violência, e outros vários fatores sociológicos que ajudam a explicar estas inquietações, que de fato, são mesmo interessantes. Mas o que me dá esperança é saber que ainda brotam lágrimas de indignação. Ainda que silenciosas. Ainda que descrentes. Mas elas seguem caindo.
Podemos chorar por políticos inescrupulosos,pela portaria que flexibiliza a fiscalização ao trabalho escravo, pelo corporativismo que salva a pele de quem não deveria mais nos representar em cargos públicos. Pelos que saqueiam bilhões de um país que não consegue cumprir minimamente com os serviços públicos que deveria oferecer e cobra a conta dos que mais sofrem as consequências destes rombos.Por quem ainda é discriminado por cor de pele, sexo, religião. Pela ignorância. Poderíamos chorar pelas mulheres vítimas da violência doméstica ou pelas crianças inocentes que sofrem os mais perversos tipos de maus tratos. Pelos cachorros e gatos covardemente envenenados.
Sinceramente, eu não consigo fazer esse juízo de valor de quem merece mais atenção. Como vou avaliar o tamanho da dor da morte de alguém? O que me conforta são as lágrimas.Em tempos de tanta intolerância, acalenta saber que a barbárie segue tocando os corações de quem se importa com os outros. De quem acredita na vida. De quem ama seus semelhantes. Enquanto essas lágrimas ainda tocarem o chão, haverá vontade de seguir em frente. E um coração pulsando. Na Somália, em Porto Alegre, em Paris. Entre nós

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