Pneus queimados, estradas interrompidas, ovos, palavras de ordem contra a imprensa golpista. Esses foram itens reiteradamente repetidos nos protestos de partidos de esquerda, movimentos sociais, sobretudo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, em todo o país, nas últimas décadas. Os argumentos favoráveis eram de que só a pressão popular e a pauta por parte da cobertura midiática garantiria ouvidos e olhos abertos para as demandas destes setores, que sentiam-se prejudicados. Entre os contrários, ruralistas, liberais e diversos setores da sociedade civil denunciavam o desrespeito à Constituição Federal no que tange ao direito de ir e vir, além da violência empregada e os riscos de manifestações de massa, em que lideranças podem perder o controle da situação.
Pois o Estado que se auto proclama o mais politizado da nação protagonizou cenas no mínimo curiosas neste mês de março. Os pneus e os ovos mudaram de mãos. Da esquerda para a direita. Agora com trator e relhos. Entre os subversivos da vez, quem diria, representantes dos ruralistas e do Movimento Brasil Livre. As práticas são as mesmas. Os argumentos muito parecidos. O episódio de Passo Fundo confirmou a condição cambaleante da democracia brasileira. E outra afronta à nossa “Carta Magna”, que garante liberdade de expressão e reunião em locais públicos.
Não se trata de defender Lula, absolutamente não. Triste é a incapacidade de aceitar o contraditório. Hoje (não sei por quanto tempo), Lula é um homem livre e tem todo o direito de falar o que e onde quiser. O mesmo e inalienável direito do Bolsonaro, Ciro, Manuela, Alckmin e qualquer outro. Podem haver protestos, atos paralelos, mas essa preocupação de políticos em proibir comício ou “correr o fulano daqui” não coaduna com quem tem espírito livre.
As águas de março fecharam o verão, viraram lágrimas e mataram mais um pouco da esperança de que podemos conviver entre os diferentes. É pau, é pedra. E por aqui ainda tem relho. Só nos resta torcer para que não seja o fim do caminho. E que este relho caia da mão antes de atingir outros lombos de minorias que tanto desagradam os que insistem em impor as suas versões da história.

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