Aprendi desde cedo que acordos foram feitos para serem cumpridos. Em tese, ninguém é obrigado a combinar nada com ninguém. Assim, o mínimo que se espera é que cada um cumpra com o que foi estabelecido entre as partes. Escrito, registrado ou apenas verbal, um acordo pressupõe caráter para que seja honrado até o fim, a menos que consensualmente seja quebrado entre as partes. Se um dos lados não respeita o combinado, acabou o acordo. Terminou o compromisso.
É assim também com as promessas. Quando eu tinha 12 anos, era janeiro e eu prometi para um tio muito gremista que, se o tricolor fosse campeão do mundo naquele 1995, eu iria de casa até a beira do mar de joelhos, e pelado. Prometi essa bobagem porque, no começo daquele ano, qual era a perspectiva de um time formado por refugos e que tinha em um mesmo grupo da Libertadores o todo poderoso Palmeiras, de Rivaldo, Edmundo, Roberto Carlos, etc?
Aí vem o improvável nesta vida. O resto da história todos conhecemos e, naquela decisão por pênaltis contra o Ajax estava em disputa bem mais que o título. O que eu faria se o Dinho e o Arce tivessem acertado os penais? Que desculpa eu daria? Acho que a única concessão que me fariam seria liberar as roupas, porque os joelhos teriam que suportar o percurso, de algumas quadras. Até hoje eu fico pensando nisso, entendendo que o que eu passei naquela manhã de dezembro foi muito mais que uma simples “secação”.
Tem direito o Cpers de bloquear a Assembleia Legislativa e decidir quem pode entrar? Não, não tem. Tem direito o governo do Estado de parcelar salários dos professores mês após mês, forçando os educadores a suportar situações vexatórias, humilhantes? Não, claro que não tem. Sim, estamos falando de cumprimento de leis, e não de simples acordos, mas o sentido é o mesmo. Quando uma parte não cumpre o que deve ser feito, a outra automaticamente sente-se no direito de fazer o mesmo. E os maiores prejudicados, nessa história, são os alunos, que lhes veem arrancada a maior possibilidade de libertação, de busca de dignidade, de uma vida melhor.
A educação é a maior ferramenta de inclusão possível. Mas voltando ao cumprimento de acordos, de leis, de palavra. Se o poder público não dá o exemplo, como garantir a ordem? Está errado o Cpers. Está errado o governo. E o nosso futuro, como fica? Nas mãos destes jovens, fora da escola, porque não há o básico. Reféns de um estado de coisas onde o cumprimento das leis é seletivo. Quando não há autoridade moral de cobrar, caminhamos para um sistema anárquico. Acéfalo. Paralelo. Perigoso.

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