A internet cai, o sistema cai, a gente cai, as tetas, o saco, o corpo. Tudo despenca. A gravidade é soberana, sempre acabamos aos seus pés. Me consta que já adoramos como deuses o sol, o fogo, vários astros, animais e híbridos diversos com partes uns dos outros. Mas nunca vi uma reverência divina à gravidade. Sempre discreta, suave e clara quanto às suas leis, me parece ter os melhores predicados de um deus. É onipresente, é justa, pois exerce sua força proporcional ao tamanho de cada mundo, não faz distinção de quem ou o que deve obedecê-la e não precisa de uma turba histérica de adoradores. A gravidade fica ali, na dela, desafiando o sonho e a liberdade de flutuar, de tudo que habita seu domínio. Diante de um tombo, recebemos sua bênção e lição de humildade. Típico comportamento de um deus, ensinar através da escarmentação. Além disso, até já descobrimos onde ela mora, ou pelo menos os buracos negros onde ela se enfia.
Os pássaros, que surfam com graça no seu tecido divino, são os anjos que vêm trazer suas mensagens. Aves de rapina têm sido exemplos de força e determinação; já os piolhentos pombos são modelos de paz e liberdade. E nós, rastejantes, os invejamos. Como seria maravilhoso deslizar pelos céus e cagar em cabeças de ídolos.
Há um desafio paternal, também típico de deuses, na gravidade. Ela quer que a superemos, por isso a inveja dos pássaros. Alguns inquietos, malditos infiéis, como Santos Dumont, irmãos Wright, Wernher Von Braun se tornaram filhos pródigos, desafiando a divindade e contornando suas leis. Ainda que com limites, voamos, mesmo tendo nascidos desasados, e atingimos altitudes onde a influência da gravidade está muito diluída. Que deus permitiria essa afronta às suas leis? Que deus permitiria a liberdade para além de seus domínios? Só um deus essencialmente bom e seguro de si, que conhece e valoriza os dotes de suas crianças curiosas. Um deus que não quer poder absoluto, porque isso é um saco de manter. Ele quer ver seus súditos vencendo-o, superando-o. Um deus que nao quer ficar preso a uma zeladoria eterna e quer voar outros voos. “Voe e deixe voar” deve ser o lema dele. O deus gravidade dá pistas para o superarmos e ganharmos altura com nossas próprias hélices, asas e propulsores. Um deus não deve ser babá, deve ser inspirador, e inspiradores querem novidade, não criaturas servis que vivem choramingando pedidos. Não sei, mas daqui de onde estou, colado ao chão, a gravidade me parece ser um deus viável. Se pelo menos ela tivesse nascido homem, hétero e branco, teria o status merecido.

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