Tudo dá foto, o cara abaixado recolhendo lixo, cofrinho à mostra, cachorro com a cabeça enfiada no saco, o tombo de bicicleta, o esforço do atleta. Aprisionar um momento, mera compensação diante da incapacidade de frear o tempo, instantâneos da vida enjaulados em um frame, os aniversários, as férias e os casamentos, os amigos, as festas, uma flor, um por do sol e bichinhos de estimação, tudo no álbum familiar, na nuvem e na memória do celular, um presidiário, confinado, na página policial.
Imagens! Eu quero imagens! A notícia deseja o olhar, a mídia é um animal faminto, alguém tem que lhe dar de comer. A crua realidade é especiaria no mundo digital. As saturações, os matizes e os contrastes alimentam reportagens. Super exposição é prato farto e feito, servido no telejornal, que digerimos, sentados, na sala de jantar. O triste retrato da fome estampado na revista e a comida, digitalizada, é compartilhada na rede social. Olhem para mim, vejam o que eu faço, como me alimento, como sou feliz, vejam como pareço e apareço, de bico de pato ou cara de mau, valor, conceito, cara de pau, embalagem. Tudo dá foto. O close no decote, estrategicamente enquadrado, o dorso, a frente, a face, o perfil no Face, a era da imagem, megapixels, megalo-pixels, imagens reais com significados banais. A deusa de calça jeans e o esforço torto do homem para olhar, a bunda, curvas em movimento, o que a foto não capta a fantasia revela e completa, Photoshop mental, aquela foto privada, mais ousada, ensaio sensual, insinuar é forte, mostrar é só o real, quem quer tanta realidade? Engodo na dose certa, somos cúmplices, no quarto escuro, na luz vermelha de revelar, o filme, papel fotográfico, ampliador, o que surge é imagem, não é verdade mas por um momento foi, e o que é a verdade senão um retrato que nos é dado através das lentes que sobrepomos?
O mundo é grande angular, a alma é close, o horizonte cabe no olhar, cara de paisagem para quando não há legenda, mil palavras dizem que vale uma imagem, mil fotos não valem uma saudade, apenas uma troca de olhares pode derrubar o muro da solidão, em uma foto apreendemos a essência do instante, e perdemos outros, que teimam acontecer enquanto a admiramos. O fluxo, um reflexo, a fuga, a chegada, uma partida, a espera, um rosto desgastado, a esperança, um olhar perdido, o rio que revolta, o porto iluminado, a luz amarelada, sombras compridas, luz cálida, vela, ISO 400, sensibilidade, baixa velocidade, tripé, lua, noite estrelada, tudo dá foto, só o breu nada revela.

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