Quando chegou a minhas mãos o primeiro gibi da Walt Disney, eu ainda nem sabia ler, mas soube na hora que queria fazer desenhos como aqueles. Teixeirinha e Gildo de Freitas cantavam a trilha sonora dos afazeres de minha mãe enquanto eu devorava cada quadrinho, cada cena, cada traço. O calor do fogão à lenha dava conforto à vida dura, os desenhos em sequência davam possibilidade ao impossível.
Ali aprendi que, independente da realidade que vivemos, sonhos podem ser desenhados.
O gibi aberto, encostado em um vaso, era o modelo a ser seguido. Lápis bem apontado, borracha e papéis a postos para reproduzir uma cena, um mísero quadrinho daquela obra fascinante aos olhos sonhadores do menino. Os traços vinham com dificuldade, a borracha entrava em cena muitas vezes, o papel já estava sujo e minha versão do “Dragão Dengoso” era sofrível. Eu via que não estava bom, mas não sabia melhorar. Como era possível ter modelo e desejo e a mão insolente se recusar a trazê-los ao papel.
Ali aprendi que a tarefa de raptar coisas do imaginário e as expor ao mundo real não dependia só da vontade nem de mágica, mas de esforço e aprendizado.
Um dia, consegui desenhar uma árvore perfeita. Tinha folhas evidentes, tronco com rugosidades bem construídas e um efeito de luz e sombras que me encheu de orgulho. O resto da cena, porém, não merecia aquela árvore. Por que é tão difícil desenhar gente e bicho em movimento? Eu preservava com extremo cuidado o lado do papel onde estava a árvore, enquanto a outra parte já estava rasgada do apagar e refazer. Eu não queria perder o que tinha “dado certo” do desenho, mas esta parte era íntima de uma sucessão evidente de erros. Sucesso e fracasso, lado a lado. Então me dei conta de que, se eu tinha conseguido desenhar uma bela árvore, poderia desenhar várias, e melhores. Joguei todo o papel fora.
Ali aprendi que erros podem comprometer acertos, mas que ambos são escadas para um nível melhor.
Mais tarde, quando já ganhava algum dinheiro, investi em um curso de desenho por correspondência. Toda semana o carteiro trazia um conhecimento novo. Eu ficava impressionado como já haviam sido definidas técnicas e fórmulas para volumes, sombras, ilusões de movimento. O fascículo de desenho anatômico me deixou boquiaberto. Eu não acreditava que meus braços abertos tinham o tamanho da minha altura, que meu pé é do tamanho do meu antebraço, que minhas orelhas têm o tamanho equivalente do topo da sobrancelha à base do nariz. A cada nova proporção descoberta eu ficava me medindo, feito um contorcionista abobado.
Ali aprendi que o conhecimento acumulado é ferramenta poderosa e que deve sempre ser compartilhado.
O desenho acabou me levando para muitos caminhos e aprendizados. Nenhum foi, ou é garantia de certeza, sucesso ou segurança. Mas persistir e aprender nos leva mais longe. Aqui aprendi que a vida se vive com lápis. E borracha.

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