O povoado onde vivia o desmaiador era realmente peculiar. Impossível não relatar histórias sobre o estranho reino cercado por morros pretos. A forma de governo era a monarquia, mas sem essa de passar a coroa de pai para filho. O povo havia conquistado o direito de escolher seu Rei, bem como retirá-lo do trono.
O grupo escolhido para fiscalizar e avaliar as atitudes do monarca contava com ajuda de investigadores, sábios das leis, espiões e místicos especializados em leitura de silêncios constrangedores, berros, explosões de humor e discursos ininteligíveis. Estes místicos conseguiam perceber sutilezas futurológicas das intenções dos reis em cada gaguejada, grunhido, fungada, soco na mesa e frases desconexas. Havia místicos super especializados em ler o futuro nas flatulências monárquicas, mas seguidamente eram escorraçados pelos scrotum-adnexo reais, que estão sempre grudados no penduricalho vizinho à válvula extravasora dos gases. Este local crítico e sensível é o que mais revela, com seus movimentos e odores, os medos, as tensões e os afrouxamentos de conduta. Por isso é tão bem protegido por fiéis servos.
A temporada de caça ao Rei era muito aguardada pelo povo. Era a quebra da rotina, a oportunidade de destilar ódios e frustrações, de soltar o cão de cada um em perseguição e morte da raposa real.
Em outros povoados, um evento raro, neste, por motivos que nem os místicos explicam, acontecia a cada dois anos.
O Rei anterior cultivou desafetos e tinha ideias estranhas, inspiradas, dizem, por seres de outro plano. A gota d’água para sua caça foi um projeto que rasgou as ruas do povoado ao meio. O ex-Rei embestou em fazer um corredor exclusivo para usuários de cavalos de pau. O povoado virou chacota. Os morro-negrenses não perdoaram. Queriam caçá-lo antes que colocasse em prática outro projeto: esticar uma corda entre dois morros para o trânsito de equilibristas. Aquele Rei era um tanto lento, foi alcançado e abatido facilmente.
O novo regente foi pego em conluio com amigos na prática de atos ilícitos. Os místicos, aqueles super especializados, mesmo estando longe da fonte, viviam alertando que há tempos sentiam cheiros suspeitos vindos da coisa real. Investigadores e homens de leis foram mais a fundo e constataram situação cabeluda. Por estranha ironia, a temporada de caça foi aberta por um fiscal chamado Cabelo.
Esta caça foi mais emocionante, houve invasão dos aposentos reais, defenestramento de servos, prisão de amigos da coroa, luta e esperneio. Só não teve desmaio, mas parece ataques de fígado e gastura, houve. Este Rei era mais ágil, por um tempo conseguiu sumir e deixar os caçadores confusos. Uns dizem que se escondeu nas ensaboadas águas do Pântano Falácio, outros dizem que se embrenhou no cipoal das Leis Ordinárias. Há a versão de que ele nunca mais apareceu, mas também contam que voltou fortalecido e envolto em glórias. Como não me contaram o fim desta história, espero ansioso por notícias daquele reino desencantado.

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