Me colas um rótulo, porque é teu desejo me ler da maneira mais simples e rápida possível. Não sei me ler completamente, como poderias tu? Teu rótulo e tua cola são subprodutos do medo. Sei que já não encontras mais as verdades de prateleira, aquelas finamente embaladas, que tanto te saciavam.
O bem e o mal de micro-ondas, de aquecer e consumir, saturou o paladar. A democracia pré pronta, de caixinha (é só acrescentar um ovo, misturar e levar ao forno) está embolorando na travessa prateada.
Os heróis em pó, os salvadores instantâneos que iluminavam as mesas em jarras bojudas e coloridas, revelaram-se fontes de sódio, açúcar, conservantes e câncer.
Coxinha, feminazi, petralha, fascistóide, viado, defensor de bandido, nazista, comunista, LGBtista, socialista de iPhone, capitalista opressor, vermelho, burro de direita, burro de esquerda, abortista, reaça, pobre de direita, bolsominion, mortadela, vai pra Cuba, vai pra Miami, bolivariano, burguês, entreguista, carguista, pelego…
Tantos recortes de velhos pacotes.
Os alimentos de conveniência estão dando lugar aos mais saudáveis e preparados com calma e carinho, regados a boas conversas sobre o fast food cultural e ideológico disponível no mercado.
As velhas prateleiras que organizavam embalagens bem definidas agora estão ficando repletas de ingredientes e insumos, que devem ser misturados, testados e apreciados, buscando novas combinações. Quem não gosta da cozinha está a colar rótulos reciclados. Está a resumir a receita ao aroma do tempero que lhe invadiu as ventas.
Quão liso e antiaderente és, rotulador, que a ti não fixam rótulos? És o baluarte da complexidade organizada, que a tudo e a todos define e etiqueta. Ó senhor dos adjetivos e neologismos, ó apelidador, redutor, catalogador, simplificador. Tão completo és que namoras a verdade e juras que ela não te trai.
São admiráveis tuas certezas arraigadas, tuas batalhas épicas.
Há um rotulador em cada um de nós, cuja cruzada é revestir todo o território das incertezas. Se lhe dermos uma espada e uma bandeira, ele se sentirá ungido e predestinado. Se lhe dermos a frigideira, as panelas, as facas, garfos, a escumadeira e os insumos, talvez se empolgue e vire um master chef. Ou jogará tudo de volta na nossa cabeça, vai saber. Rotuladores são tão crus e in-tensos.

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