Algumas pessoas são más. Quero dizer, mais más que a média, já que todo ser humano carrega a semente da maldade no solo da alma.
Em quase todas as pessoas, essa semente brota, mas é controlada, como um inço. Sabemos que vez ou outra irão crescer uns aqui, outros ali, mas a grande maioria não deseja que eles infestem suas plantações.
As pessoas nas quais estas sementes indesejáveis sequer germinam chamam de puros, santos, espíritos evoluídos, autistas, excepcionais.
É normal ter uma quantidade de ervas daninhas entre nossos pés de trigo, que deixamos crescer por preguiça, falta de tempo, comodismo e até por autodefesa. Elas são insistentes, não se deixaram domesticar, não seguem nossas regras nem crescem comportadas em nossas fileiras bem organizadas de plantas para consumo social.
Lá atrás, quando domesticamos nossos instintos, alguns deixaram de ser úteis, como o ódio, a vingança, o extermínio, mas são plantas resistentes e antigas. Crescem em qualquer pedacinho de terra.
Por se desenvolverem em ambientes hostis, as ervas indesejáveis têm a função de recuperar solos degradados pelos nossos exageros. As raízes dos sentimentos daninhos abrem caminho na terra compactada pela indiferença e pelo tédio, permitindo que nos irriguemos com outras perspectivas. Evitam a erosão da velha rotina e dos conceitos desgastados.
Quando vejo comentários como “O mundo está perdido”, “Está tudo cada vez pior”, “O ser humano não tem mais jeito”, “Na minha época não era assim”, lembro que na década de 80 minha mãe já chegava a essas conclusões, embalada pelo desfile de desgraças promovido pelo Sérgio Zambiasi em seu programa de rádio matinal. Antes disso, na década de 70, já ouvia nas conversas dos adultos que a vida estava cada vez pior.
Bem antes disso, matamos a rodo, torturamos e escravizamos. Os inços sempre estiveram entre nossas plantas, só que agora temos janelas maiores para vê-los, e eles brotam até nos rejuntes mal feitos de nossos pisos de porcelanato.
Toda vida, mesmo a indesejável, quer se preservar. Algumas viabilizam suas jornadas por cooperação, outras por simbiose ou parasitismo. Irão proliferar e dominar, as que encontrarem ambiente sem resistência.
Constantemente, há que carpir nossos lotes.

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