A casa amarela, com uma grande horta na frente, contrastava com o cinza dos depósitos e sobrados mal cuidados do bairro. Eu morava no sobrado mal cuidado logo ao lado. Sendo uma criança que não tinha TV, fazia da rua e dos vizinhos meu parque de aventuras.

Era comum moradores pedirem para aquele guri buscar algo no armazém em troca de alguns centavos. Na casa amarela, morava dona Dulce, uma mulher grande, sorriso largo com uma separação entre os dentes da frente e um jeito estranho de falar, que mais tarde descobri ser sotaque espanhol. Morava com o marido, seu Inácio, e Salino, o cão. Ambos eram brancos e velhos, dona Dulce vivia reclamando que eram uns imprestáveis. Talvez por não ter tido filhos, dona Dulce me chamava para olhar TV em sua casa e sempre me oferecia alguma guloseima. A hora do Ultraman era sagrada, eu ficava impressionado como tinha monstros gigantes em Tóquio. Praticamente todos os dias, Ultraman livrava a cidade de um diferente. Após o programa, eu detinha a Cápsula Beta, me tornava o super herói e lutava contra monstros com não menos que 100 metros de altura. Às vezes, à noite, a imaginação saía de controle e eu espiava pela janela o horizonte limpo do aeroporto, temendo, em segredo, a aparição de um gigantesco Kaiju mastigando um Boeing. À noite, os nossos monstros são mais aterradores, principalmente os que não aparecem, mas sabemos que estão lá, à espreita.

Um dia, dona Dulce me chamou para resolver um problema. Seu pé de Araçá estava muito carregado, o excesso de frutos estava quebrando os galhos. Minha missão era eliminar a invasão de Araçás Kaijus alienígenas. Peguei o banquinho do seu Inácio e passei algumas horas devorando criaturas meio doces, meio azedas.

Empanturrado e com uma barriga saliente que não combinava com a estética de um super herói, fui agradecer e devolver o banquinho. Senti falta do Salino e perguntei por ele.
– Fiz sabão! Estava muito velho e já não prestava pra nada.

Dona Dulce me sorria com seu sorriso de dentes separados enquanto eu podia focar, mais atrás, umas bacias, apetrechos estranhos e uma grande pilha de blocos bem cortados de sabão. Fiquei apavorado e segui para casa pensando como se convertia cão em sabão. Por algum tempo, fiquei sem assistir Ultraman, dona Dulce se transformara em um grande monstro sorridente. Um dia, fiquei sabendo que seu Inácio havia morrido. Não sei se foi minha imaginação, mas ao espiar o pátio de dona Dulce, juro que vi uma pilha de sabão bem maior.

O tempo passou, a vida ensinou que não há Cápsula Beta. Às vezes, gosto de ir até aquele bairro, estacionar o carro e ver o pequeno super herói sujo, cheio de feridas nas pernas, que nunca saiu de lá e continua lutando contra coisas imaginárias, as quais pode vencer. Está tudo diferente, não há mais casa amarela nem sobrados sujos. Até Ultraman virou sabão.

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