O palhaço sonhava com um grande picadeiro, onde todos seriam um pouco artistas, um pouco bobos, um pouco menos tristes. O palhaço sonhava com uma grande lona colorida, bem esticada, por muitas mãos. A lona poderia ser simples, com grandes listras verdes e amarelas, poderia ter alguns remendos, mas cobriria a todos, artistas e plateia, sem exceção, sem privilégios. O palhaço não tinha estudo, não sabia como fazer, só tinha a vontade, a inocência e aquele jeito de fazer graça, às vezes sem graça, mas que fazia rir pela ingenuidade.
E o palhaço sonhou mais alto e foi levado por seus fãs sorridentes ao trapézio, sem rede de proteção.
O palhaço não tinha a precisão dos equilibristas, nem o reflexo, nem a elasticidade dos artistas voadores. O palhaço tinha até medo de altura. Ele se dava bem no chão, perto das pessoas simples, de onde podia ver os sorrisos e os olhos famintos. Lá de cima, só via a massa, as luzes e o vai-e-vem de gente que se pendurava ora aqui, ora ali, num espetáculo de semideuses com poderes alados. Ensaiou alguns voos, tentou algumas manobras, mas o ar não era seu chão.
Mesmo acuado e tímido, o palhaço nunca faltou a um espetáculo. As pessoas queriam saber que ele estava lá, era um deles, que saiu da poeira do chão e foi para o plano alto. De lá, esperavam, ele poderia ter ideias para mais lonas coloridas, mais circos, mais espetáculos e mais sorrisos. Mas o tempo foi passando e as cenas eram sempre as mesmas. Não havia novos números, nenhum trapezista queria fazer graça, nenhum queria descer de suas torres ricamente decoradas e iluminadas. O palhaço sonhava com os circos estrangeiros que viu na TV. Artistas, palhaços, malabaristas, contorcionistas e público estavam todos próximos, o espetáculo era de todos, todos eram o espetáculo. Mas não ali, naquele circo todos tinham papéis bem definidos. Ele não era bem vindo onde o colocaram, deveria ter ficado lá embaixo, fazendo suas macaquices.
Pelo menos ele não tinha prometido nada, só alertou que pior do que estava, não ficaria. Mas até isso não se cumpriu. Os malabarismos ficavam cada vez mais ousados, cada vez mais distantes do riso, absurdos. Cada vez mais próximos do perigo. De vez em quando um caía, para o horror da plateia, até que tantos caíram que o horror já era espetáculo. O palhaço foi se encolhendo em um cesto no alto de uma das torres. Os voadores riam dele, na verdade, roubavam seus sorrisos. Eles precisavam de muitos, para os holofotes.
Um dia, quando já não tinha sobrado mais nada, ele desceu. Sentiu os pés no chão firme e sujo. Não usava mais roupas coloridas nem peruca. Não tinha maquiagem, não tinha nariz vermelho, não tinha graça.
Não fez nenhuma palhaçada, nenhuma piada, só ficou ali parado, no picadeiro, enquanto seu público triste o aplaudia.

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